Processado

Moraes é citado em ação nos EUA; caso amplia tensão diplomática com o STF

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraesfoi formalmente citado por um tribunal dos Estados Unidos em uma ação movida pela plataforma Rumble e pela Trump Media & Technology Group, companhia associada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Especialistas ouvidos, avaliam que o episódio tem potencial para ampliar o desgaste diplomático envolvendo o STF, plataformas digitais e o debate sobre liberdade de expressão.

A comunicação judicial foi enviada na última sexta-feira (22) e estabelece prazo de 21 dias para que Moraes apresente defesa em uma corte federal da Flórida. Caso não haja manifestação, o processo poderá seguir à revelia.

A ação questiona decisões do ministro que determinaram a remoção de perfis ligados a investigados por disseminação de desinformação e ataques às instituições brasileiras. As empresas sustentam que as ordens violam a Primeira Emenda da Constituição americana, que protege a liberdade de expressão.

Para o cientista político Gabriel Amaral, o impacto político do caso tende a ser maior que o jurídico neste primeiro momento. “O caso internacionaliza disputas que antes estavam restritas ao ambiente político brasileiro e aproxima o STF de uma narrativa global envolvendo big techs, liberdade de expressão e setores ligados ao trumpismo. Isso amplia o desgaste diplomático e simbólico do conflito, ainda que os efeitos concretos da ação permaneçam incertos”, afirmou.

O internacionalista João Alfredo Nyegray segue na mesma linha e avalia que a disputa ultrapassa o campo jurídico tradicional. “A notificação de Alexandre de Moraes em território jurídico americano representa, antes de tudo, uma tentativa de deslocar um conflito originalmente doméstico para uma arena internacional mais favorável às plataformas digitais e à concepção norte-americana de liberdade de expressão”, afirmou.

Segundo Nyegray, o episódio possui dimensão geopolítica porque envolve não apenas uma empresa de tecnologia, mas também a Trump Media, ligada ao entorno político de Donald Trump. “O litígio deixa de ser apenas uma disputa processual e passa a integrar a crescente polarização internacional sobre censura, soberania digital e limites do poder estatal sobre o ambiente informacional”, disse.

Citação por e-mail – Segundo Amaral, a Justiça norte-americana possui margem para admitir formas alternativas de notificação em disputas internacionais, inclusive por meios eletrônicos. “A autorização da citação por e-mail não é necessariamente incompatível com o sistema processual americano”, explicou.

Nyegray considera que esse é o ponto mais delicado do caso. “A validade da citação por e-mail é provavelmente o ponto mais controverso do caso”, afirmou.

Ele explica que cortes americanas vêm flexibilizando regras tradicionais quando entendem que mecanismos formais de cooperação internacional não avançam. “Sob a ótica processual americana, isso pode ser considerado suficiente para garantir ‘reasonable notice’, ou seja, uma ciência razoável da existência da ação”, destacou.

Apesar disso, o especialista avalia que permanecem brechas importantes para contestação. “O problema é que essa interpretação não elimina brechas relevantes para contestação”, disse.

Estratégia da defesa – Na avaliação de Amaral, caso Moraes decida responder formalmente ao processo, a tendência é que a defesa concentre esforços na discussão processual antes do mérito da ação.

“Os principais argumentos devem girar em torno da ausência de jurisdição dos EUA sobre atos praticados por um ministro do STF no exercício de função constitucional, além de debates sobre imunidade funcional e eventual inadequação da forma de citação adotada”, afirmou.

Nyegray afirma que Moraes pode questionar tanto a validade da notificação quanto a própria competência da Justiça americana. “A defesa poderia sustentar que a tentativa de citação por e-mail violaria procedimentos internacionais obrigatórios e comprometeria garantias mínimas do devido processo”, explicou.

Ele também aponta que a imunidade funcional deve ser um dos principais pilares da estratégia jurídica. “Moraes pode alegar que os atos questionados foram praticados enquanto autoridade máxima de uma corte constitucional em procedimentos internos relacionados à aplicação da legislação brasileira”, disse.

Pressão internacional – O cientista político Marcio Coimbra avalia que a notificação representa “o destravamento de uma ação civil de jurisdição estrangeira na Justiça Federal da Flórida”, iniciando oficialmente o prazo de defesa do ministro brasileiro.

Politicamente, Coimbra vê o episódio como uma forma de pressão internacional contra o STF. “O ato serve como um forte instrumento de pressão internacional articulado por plataformas alinhadas à direita e ao governo de Donald Trump, buscando expor e constranger o Supremo Tribunal Federal no cenário global”, afirmou.

Nyegray também avalia que a decisão da Justiça americana possui forte peso simbólico.

“Ao aceitar o processamento da ação e autorizar formas alternativas de citação, a Justiça americana sinaliza que está disposta a ao menos ouvir argumentos segundo os quais autoridades estrangeiras poderiam ter extrapolado seus limites jurisdicionais”, afirmou.

Segundo ele, isso “rompe a ideia de que decisões do STF permaneceriam confinadas ao ambiente jurídico brasileiro sem possibilidade de contestação internacional”.

Próximos passos – Segundo Coimbra, Moraes não poderia declarar a nulidade da notificação usando sua posição no STF, mas teria de contestar o ato diretamente na Corte da Flórida.

“Os principais argumentos de defesa seriam a falta de jurisdição dos tribunais americanos sobre atos soberanos de um magistrado estrangeiro no exercício de suas funções, a imunidade jurisdicional de agentes de Estado e a invalidade da citação por e-mail”, afirmou.

Caso o ministro apresente defesa, a estratégia deve ser tentar extinguir a ação sem análise do mérito. Se optar por não responder, a Justiça americana poderá decretar revelia. “O processo avançaria apenas com os argumentos e provas apresentados pela Rumble e pela Trump Media, o que pode resultar em uma sentença condenatória à revelia com potenciais sanções simbólicas ou restrições patrimoniais em solo norte-americano”, avaliou Coimbra.

Nyegray avalia que o cenário mais provável é uma reação intermediária por parte da defesa. “O mais provável é uma estratégia intermediária: contestação estritamente processual, sem ingresso pleno no mérito da disputa”, afirmou.

Embate global – Para os especialistas, o episódio marca uma escalada no conflito entre o STF e plataformas digitais estrangeiras. Coimbra afirma que o caso “eleva um embate que antes ficava restrito ao cumprimento de ordens no Brasil para o campo da jurisdição internacional e da soberania estatal”.

Amaral destaca que a disputa evidencia diferenças entre os modelos regulatórios do Brasil e dos Estados Unidos. “O caso expõe o choque entre modelos distintos: de um lado, uma visão mais intervencionista na proteção institucional; de outro, a tradição americana de proteção mais ampla à liberdade de expressão”, concluiu.

Para Nyegray, o caso revela um debate global mais amplo sobre o controle das plataformas digitais. “O processo aprofunda um conflito que já vinha crescendo entre Estados nacionais e plataformas digitais globais: quem define os limites da liberdade de expressão no ambiente digital?”, questionou.

Segundo ele, “quanto mais o STF amplia protagonismo regulatório sobre redes sociais, mais tende a se tornar ator político internacionalizado — sujeito não apenas ao debate jurídico doméstico, mas também à pressão diplomática, econômica e narrativa de atores estrangeiros”.

Fonte: R7 – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ABr

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