A saída de Flávio Bolsonaro do país, confirmada por autoridades argentinas e fontes americanas, não é o ato de covardia que a militância petista e parte da imprensa já classificam. É a reação previsível de quem perdeu a confiança mínima no sistema de Justiça brasileiro. Quem, no lugar dele, confiaria? Jair não está preso por um golpe impossível, julgado por quem o considera um demônio? Filipe Martins não está preso sem qualquer crime cometido?
O ministro Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes em 24 horas, com base em inquérito de lavagem de dinheiro e em uma fala do irmão Eduardo. O senador sequer foi indiciado ainda. Flávio descumpriu o prazo. Poucos minutos após o resultado oficial do segundo turno – sete minutos, segundo cronologia divulgada –, a máquina já estava pronta para restringir a circulação do derrotado. Isso não é Estado de Direito. É regime de exceção dobrando a aposta.
O Brasil já vive sob regime de exceção. A vitória de Lula não suavizou o aparato; acelerou-o. Quem ainda espera ‘normalização’ ou ‘moderação’ está lendo o filme errado
Recebi relato até de jurista de esquerda chocado com o precedente. A insegurança jurídica já não é exclusividade do bolsonarismo: ela assusta quem ainda enxerga alguma independência institucional. O regime lulista avança, e a seletividade é o método. Enquanto opositores têm passaportes cancelados e investigações abertas no dia seguinte à derrota, casos envolvendo aliados do governo seguem em outro ritmo, com outra régua e outro silêncio.
“Em uma democracia, é muito estranho que um candidato, após o resultado, seja objeto de medida cautelar para retenção de passaporte em um inquérito cujo motivo principal ruiu. Parece-me a preparação de algo persecutório”, disse o senador Rogério Marinho. Está errado?
Pergunte a si mesmo: confiaria na Justiça de Lula, Moraes e Flávio Dino se estivesse do lado oposto? Jair Bolsonaro cumpre 27 anos. Débora do Batom pegou 14 anos por batom numa estátua. Felipe Martins continua preso sem que a maioria dos brasileiros saiba exatamente o crime que justificaria isso. Lula, no debate, ameaçou Flávio de forma explícita com perda de imunidade e punição. O ambiente é de caça, não de julgamento. Quem fez o L para “impedir risco à democracia” já está envergonhado ou ainda não?
Não se trata de endossar qualquer irregularidade que porventura exista no inquérito de Flávio – as acusações devem ser apuradas com rigor, onde quer que ele esteja. Trata-se de reconhecer que o sistema já não oferece a mínima garantia de imparcialidade para quem o desafia politicamente. Quando a oposição é criminalizada em tempo real, quando medidas cautelares são usadas como arma política e quando até observadores de esquerda se assustam com o precedente, a “fuga” deixa de ser fuga e passa a ser cálculo racional de sobrevivência política e pessoal.
O Brasil já vive sob regime de exceção. A vitória de Lula não suavizou o aparato; acelerou-o. Quem ainda espera “normalização” ou “moderação” está lendo o filme errado. A pergunta que resta não é se Flávio deveria ter ficado. É quantos outros, sem o mesmo acesso a fronteiras e aviões privados, vão descobrir da pior forma que a confiança jurídica, para opositores, simplesmente acabou.
A conta oficial do PT quer prender Deltan Dallagnol. Pedro Rousseff pediu retenção de passaporte de Nikolas Ferreira. O petista Tatto ameaçou que vem muito mais prisão por aí. O clima é de perseguição implacável, caça às bruxas. Se Trump ajudou mesmo na “fuga” do Flávio, isso mostra com clareza que a maior democracia do planeta sabe que o Brasil é um regime de exceção.
Fonte: Gazeta do Povo – Rodrigo Constantino – Foto: Reprodução