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Dança das cadeiras: base da CBF teve 16 treinadores nos últimos sete anos

Rogério Micale está na CBF há apenas um ano (Foto: Lucas Figueiredo / MoWA Press)

Rogério Micale está na CBF há apenas um ano (Foto: Lucas Figueiredo / MoWA Press)

Continuidade, conceito tratado por vários treinadores de base como fundamental para o sucesso de um trabalho, é uma palavra contrária ao que ocorre na CBF, nas seleções de base. Ao todo, 16 treinadores passaram pelas categorias sub-15, sub-17 e sub-20 desde 2009, ano em que o ciclo dessa geração olímpica se iniciou para boa parte dos jogadores do grupo comandado por Rogério Micale.

A tabela ao lado mostra apenas os técnicos em competições oficiais, com “apenas” 12 nomes. Juntam-se a eles Niltinho e Alexandre Sebben, que comandaram a seleção sub-15 em 2009 e 2010 em torneios provisórios, o ex-zagueiro Cláudio Caçapa, que comandou a sub-15 em 2014 e 2015, Luis Verdini, técnico provisório da seleção sub-20 em 2010.

O número é alarmante, se considerarmos que nenhum técnico foi repetido no ciclo seguinte em nenhuma categoria nesse período. Houve de tudo: promoções, trocas, demissões, mudanças de coordenadores e de filosofia de jogo. Apenas dois jogadores convocados desde a seleção sub-15 sobreviveram a todas essas modificações e estão no grupo que vai às Olimpíadas: o volante Rodrigo Dourado, do Internacional, e o atacante Gabriel, do Santos.

Base sem funcionários

Em 2009, os técnicos das seleções sub-20, sub-17 e sub-15 sequer eram funcionários da CBF, recebendo os pagamentos como prestadores de serviço após emitirem nota. Rogério Lourenço, que comandou a seleção brasileira no Mundial Sub-20, precisou pedir ao Flamengo para deixar de comandar o time sub-20 do Rubro-Negro e ser um dos auxiliares do profissional, para poder conciliar melhor as duas atividades.

Os profissionais escolhidos eram apenas do Rio de Janeiro: além de Rogério, Lucho Nizzo era o técnico da seleção sub-17 e Leandro Simpson o da sub-15. O fato gerava críticas dos técnicos de outros estados, que reclamavam nunca ter oportunidades, e as convocações de jogadores cariocas eram sempre questionadas.

Ainda assim, os títulos vieram: o Brasil foi campeão sul-americano sub-20 e sub-17, vice sub-15 e vice no Mundial Sub-20, perdendo nos pênaltis na final contra Gana. Em campo na decisão, estavam jogadores como Alex Teixeira, Giuliano, Alan Kardec e Souza, ex-Vasco, São Paulo e Grêmio, além de Ganso e Douglas Costa, o último atualmente no Bayern de Munique.

No sub-17, a participação no Mundial foi muito ruim, com a equipe eliminada na primeira fase por Suíça e México. Era um time badalado com Neymar, Wellington Nem, Casemiro, Fernando (ex-Grêmio) e Alisson, entre outros jogadores que hoje fazem sucesso nos profissionais. A derrota precoce contribuiu para a saída do técnico Lucho Nizzo, que havia sido também o comandante no Mundial Sub-17 de 2007. Foi, aliás, a última vez que um treinador ficou na mesma categoria por dois mundiais seguidos na CBF.

2010 e 2011: Mudança e muitos títulos

A Seleção que disputou e foi eliminada nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010 tinha média de idade superior a 29 anos, a mais alta da história do futebol brasileiro. Após a derrota para Holanda por 2 a 1, Dunga foi demitido e deu lugar a Mano Menezes, que chegou com um discurso de renovação da equipe e do futebol brasileiro. Ney Franco foi contratado para ser o coordenador técnico do projeto, além de assumir o comando da seleção sub-20. Foi a primeira vez na história que a CBF contratou um treinador com dedicação exclusiva para a base.

Junto com Ney Franco, vieram Emerson Ávila para a seleção sub-17, e Marquinhos Santos para a sub-15. Técnicos que tinham experiência comandando garotos. Os títulos vieram: a seleção foi campeã do Sul-Americano Sub-20 com direito a goleada por 6 a 0 sobre o Uruguai no último jogo e show de Neymar e Lucas, que foram rapidamente para a Seleção principal. No Mundial, já sem eles, nova volta olímpica. Vitória por 3 a 2 na final contra Portugal, na prorrogação, com três gols de Oscar.

No sub-17, o time foi campeão sul-americano e quarto colocado no Mundial da categoria. No sub-15, novo título continental, com direito a goleadas, melhor ataque e artilheiro do torneio: Mosquito, com dez gols. De negativo, apenas a eliminação da equipe sub-20 no Pan-Americano de Guadalajara, na fase de grupos.

2012 e 2013: o projeto desmorona e os vexames acontecem

A base parecia ir bem até Ney Franco trocar, em julho de 2012, a seleção sub-20 pelo São Paulo logo depois da troca de poder na CBF: saiu Ricardo Teixeria e entrou José Maria Marín, minando o poder político do diretor de seleções, Andrés Sanchez, um dos principais apoiadores do projeto de Mano, que acabaria demitido em novembro do mesmo ano.

Era o fim do projeto, e inicialmente não foi contratado ninguém para o lugar de Ney Franco. Com a ida de Marquinhos Santos para o Coritiba, a seleção sub-15 também ficou sem comando e Emerson Ávila, de uma hora para outra, se viu sozinho comandando as três seleções de base do Brasil, sem o respaldo de ninguém.

O resultado não poderia ser bom, e não foi. Sem nenhum tempo de preparação, Ávila foi notificado de que teria que convocar a seleção sub-20 para o Sul-Americano da categoria. A eliminação na primeira fase, com direito a uma derrota para o Peru por 2 a 0. Era o fim da linha para o treinador.

Gallo soberano

Após o Sul-Americano Sub-20, Alexandre Gallo foi contratado para ser o coordenador da base brasileira. Iniciou o trabalho no Sul-Americano Sub-17, e ficou com a terceira colocação. Saiu invicto do torneio  Em seguida, ganhou o Torneio de Toulon com a Seleção sub-21 e o título rendeu a ele status na CBF. No Sul-Americano Sub-15, quem comandou a equipe foi Caio Zanardi, que ficou com a sexta colocação.

Mesmo sem títulos nas categorias menores, Gallo ditava as regras na base da CBF, comandando as ações e escolhendo os técnicos das seleções menores. Para a sub-17, Caio Zanardi foi promovido. Na sub-15, entrou Cláudio Caçapa, zagueiro de muito sucesso no Atlético-MG e no Lyon, mas que jamais havia trabalhado como técnico de base.

O poder de Gallo começou a diminuir quando Dunga assumiu o comando da Seleção principal. Houve divergências entre os dois na maneira de preparar a seleção olímpica, e o técnico da base perdeu a queda de braço após ficar com o quarto lugar no Sul-Americano Sub-20 em 2015, em fevereiro daquele ano. No torneio, o Brasil foi derrotado por Argentina, Colômbia e Uruguai.

No mesmo mês, Erasmo Damiani foi anunciado como coordenador da base, o que já era um indício de que Gallo cairia. A queda, de fato, ocorreu em maio, com Rogério Micale assumindo o comando.

Fase atual

Micale assumiu a seleção sub-20 poucos dias antes do Mundial da categoria. Comandou uma equipe convocada por Gallo e foi vice-campeão, ganhando, com isso, a oportunidade de comandar a seleção olímpica durante a preparação. Com a demissão de Dunga, ele foi alçado definitivamente ao posto e será o treinador brasileiro nas Olimpíadas. Houve mudanças também nas categorias menores. Na sub-17, Caio Zanardi foi campeão sul-americano, mas deu lugar a Carlos Amadeu. Na sub-15, Caçapa deixou o cargo para a entrada de Guilherme Dalla Dea, que sagrou-se campeão sul-americano no fim do ano passado.

Para Erasmo Damiani, no entanto, o cenário ainda não é o ideal. Em entrevista dada em março de 2015, logo após assumir a coordenação da base da CBF, ele citou a “pirâmide inversa”como um problema da base brasileira.  O processo funciona assim: mal remunerado, o técnico da sub-15 mira uma promoção na carreira para ganhar mais, o que normalmente só vem com a mudança para o sub-17 ou diretamente para o sub-20. O resultado, na base brasileira, é mais valorizado financeiramente do que a formação.

Como é em outros países?

A rotatividade de técnicos na base de outras grandes seleções do mundo existe, mas é menor. Na Alemanha, por exemplo, o técnico da seleção olímpica, Horst Hrübesch, é funcionário da federação nacional (DFB) há 16 anos e foi campeão europeu sub-21 em 2009, comandando a geração que, cinco anos mais tarde, seria a base do time campeão do mundo no Brasil com Hummels, Khedira, Özil, Boateng e Neuer, entre outros. O técnico da seleção sub-20, Frank Wormuth, está no cargo desde 2008. Na sub-17 (Meikel Schönweitz) e na sub-15 (Michael Feichtenbeiner), os treinadores estão há pouco tempo. O ritmo é o mesmo das duas seleções principais: a Alemanha teve apenas dez treinadores em toda a sua história, e o Brasil, desde 1930, já soma 44 comandantes.

Na Espanha, o técnico da seleção sub-20, Luis de la Fuente, está no cargo desde 2013, e o da sub-21, Albert Celades, desde 2014. Na sub-17, a longevidade é maior, com Santiago Denía na função desde 2011, mesmo com o time não tendo se classificado para os Mundiais da categoria nas duas últimas edições. Denía comanda também a seleção sub-16. Todos atuam sob a supervisão de Ginés Melendez, que foi técnico da seleção sub-19 entre 2004 e 2012 e hoje é o diretor de seleções.

Em Portugal, que ganhou a Eurocopa há duas semanas, Emílio Peixe, técnico das seleções sub-19 e sub-20, é funcionário da Federação Portuguesa desde 2008. Rui Jorge, técnico da seleção olímpica, ocupa a função desde 2010, mesmo ano em que foi contratado Hélio Souza, técnico da seleção sub-17, e que Pierre Mankowski, técnico da vice-campeã europeia França, foi contratado para a equipe sub-21.

GE

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