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O legado da geração nascida nos anos 60: Transformando poder em exemplo para o amanhã

A minha geração nasceu em meados da década de 1960 e ocupa hoje a centralidade das decisões no país. Detentora de sabedoria prática e maturidade, enfrentamos agora nosso maior compromisso histórico: converter a influência acumulada nos pilares político, econômico, social e religioso em um modelo ético para as próximas gerações — com foco especial no atual momento eleitoral.

Entendo que o engajamento eleitoral não deve se limitar a preferências partidárias pontuais ou conveniências de curto prazo. É necessário que exerçamos a liderança política avaliando o histórico de integridade, a viabilidade técnica das propostas e o compromisso real dos candidatos com os bens coletivos e os individuais. Envolver filhos e netos em diálogos sobre cidadania, ensinando-os a checar fatos, combater a desinformação e encarar o voto como uma ferramenta de construção institucional. Além disso, é salutar essa influência para abrir espaço e incentivar a formação de novas lideranças jovens.

Há uma parte muito sensível do ser humano, que é o bolso, digo o patrimônio, os investimentos e a gestão de negócios para iniciativas que promovam impacto social positivo e sustentabilidade, individual e familiar e por óbvio dos mais vulneráveis. Apontar isso, sedimenta e fortalece uma nação próspera, que forma gerações e que tem na meritocracia, e no trabalho árduo, valores perenes. Não podemos deslembrar de ensinar a recusar qualquer forma de favorecimento escuso, financiar a integridade nas relações comerciais e demonstrar aos mais jovens que a prosperidade ganha valor real quando gera oportunidades e bem-estar para toda a sociedade.

Aprendi na mesa de minha família a utilizar sempre uma voz que atua como uma ponte, e não como um muro. Diante do acirramento que eventualmente possa surgir. Devemos com feito, fortalecer espaços de escuta, promovendo o respeito às divergências e participando de ações comunitárias locais. Aprendi também a demonstrar maturidade para debater ideias sem romper laços afetivos, ou comunitários. É o testemunho social mais urgente para os herdeiros do futuro.

Em momentos de pleito eleitoral, a fé deve ser um farol de valores éticos universais, sem, entretanto, negar o que nós acreditamos e dos valores que nos são sagrados. Não é bom, não é prudente, nem moralmente correto ser um instrumento de manipulação, não podemos permitir que sejamos um palanque partidário. Quem exerce liderança ou influência em comunidades de fé, deve zelar pela liberdade de consciência e condenar o uso de suas convicções religiosas para a obtenção de vantagens eleitorais, além de ensinar aos mais jovens que a espiritualidade autêntica se expressa na promoção da justiça social, do respeito mútuo e da fraternidade, acima de qualquer disputa de poder.

O período eleitoral costuma ser um festival de slogans vazios e promessas plastificadas. No calor das disputas partidárias, o debate político quase sempre oscila entre o populismo fiscal e a rigidez fria das métricas de mercado. Quase ninguém fala sobre o que realmente importa: a centralidade da dignidade humana. É justamente nesse cenário de profunda polarização que a tradição social da Igreja Católica ressurge não como um manifesto partidário, mas como uma bússola ética urgente para o nosso voto.

Essa jornada começou em 1891, quando o Papa Leão XIII publicou a pioneira encíclica Rerum Novarum. Naquela época, a Igreja ergueu a voz contra os abusos da Revolução Industrial, que reduzia o operário a uma mera engrenagem descartável. Mais de um século depois, o Papa Francisco atualizou esse clamor com a Laudato Si’ (2015), ao nos lembrar que a ganância do mercado destrói a nossa “casa comum” e exclui os mais vulneráveis, e com a Fratelli Tutti (2020), um alerta contundente contra a cultura de muros e o enfraquecimento da solidariedade global.

Recentemente, na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV – data simbólica do 135.º aniversário da Rerum Novarum – e publicada oficialmente pelo Vaticano em 25 de maio de 2026 –  o desafio mudou de figura. Se no século XIX o perigo era a máquina a vapor que esmagava o trabalhador, o debate político de hoje exige respostas para o impacto dos algoritmos, da automação e da Inteligência Artificial (IA) no nosso cotidiano. Ele, o Papa Leão, nos alerta que a inovação deve estar estritamente a serviço da dignidade humana, do bem comum e do trabalho justo. Ele chega ao “cume” de comparar os riscos do progresso desmedido à Torre de Babel e a responsabilidade ética à reconstrução das muralhas por Neemias, o pontífice faz um alerta incisivo contra a tentação de substituir a consciência e as relações interpessoais por algoritmos, condenando categoricamente o uso de decisões letais autônomas em guerras e o avanço da desinformação digital que destrói a confiança comunitária.

Ao entrarmos na cabine de votação, precisamos fazer uma pergunta fundamental a cada candidato: Como as suas propostas enxergam e protegem a integridade do ser humano diante da revolução tecnológica?

O maior mérito do pensamento social cristão é a sua recusa em vestir as camisas de força dos extremismos. Ele rejeita tanto o coletivismo sufocante quanto o individualismo radical e tecnocrático. O voto inspirado por essa visão não busca a vitória de uma legenda a qualquer custo, mas a construção do Bem Comum.

Votar com a consciência iluminada por essa herança significa rejeitar o pragmatismo econômico que ignora os pobres e a automação que desumaniza as relações. Na hora de escolher nossos representantes, temos a oportunidade — e o dever — de exigir que o desenvolvimento tecnológico caminhe de mãos dadas com a justiça social. A dignidade humana deve vir sempre acima do mercado, dos partidos e dos algoritmos.

Num país repleto de desigualdades, corrupção tanto pública como privada, incertezas, insegurança e violência, falta de assistência de saúde, educação que não forma, só informa, fome, e de tanto outros grandes desafios a serem vencidos, há uma pergunta que não quer calar:

Hoje com o “manche do poder nas mãos”, e como formadores de opinião, o que deixaremos como herança e testemunho para as próximas gerações? Quem tem ouvidos que ouça.

Por André Aguiar.

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