Quem classificou o presidente do Congresso Nacional, senador pelo Amapá e filiado ao União Brasil, Davi Alcolumbre, foi o seu ex-colega de partido, Onyx Lorenzoni, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro.
No Dicionário Oxford Languages constam duas definições para o vocábulo: de utilitarista
1.1. relativo ao ou próprio do utilitarismo.
1.2. adjetivo e substantivo de dois gêneros; adepto do utilitarismo; utilitário.
Tradução – Com sua alegria de viver, carisma, simpatia, alto astral e bom humor, o político chegou a Brasília após ser eleito deputado federal pela primeira vez, em 2002, ano do penta, se comportando como um verdadeiro mister simpatia para uns e, pelo que também se depreende da matéria, “bobo da corte”, para outros. Enfim, querendo agradar a todo mundo, desde que este agrado lhe trouxesse algum benefício. Eis o utilitarismo.
Derrota e senso de oportunidade – E pelo visto, nunca pensou que fosse chegar tão longe, sobretudo após uma derrota pra lá de dolorosa, em 2018, quando perdera a disputa ao governo do estado, e viu seu futuro político ameaçado de maneira real.
Baixo e sem voz – Empossado em Brasília pela primeira vez em 2003, a reportagem da revista piauí, edição 235, de abril de 2026, assinada pelos repórteres Camille Lichotti e Allan de Abreu, destaca que ele começou sua carreira de parlamentar federal integrando o chamado baixo clero, “formado pela massa de parlamentares que atuam com a precisão das águias na defesa de seus interesses, mas não têm voz nas grandes questões nacionais”, diz o texto.
Com quem andas – Davi iniciou em Brasília como aprendiz, boy de luxo, carregador de pasta, do então ainda todo poderoso senador José Sarney, aquele do Centrão, da hiperinflação, que terminou seu governo tão impopular, que viu na mudança de domicílio eleitoral para o “estado feudal” de Alcolumbre, o Amapá, uma saída para fugir do opstracismo que se avizinhava.
Quando Alcolumbre chegou à capital federal, “(..) sua principal ocupação era servir de mensageiro do ex-presidente José Sarney, seu mentor e aliado no Amapá. Ele frequentava ministérios e gabinetes, resolvendo demandas do ex-presidente”, revela a matéria. “Era convidado para as reuniões, festas e jantares na casa de Sarney, nos quais não dava palpite, mas observava a atuação dos cardeais da política”, acrescenta o texto.
Nossa opinião inicial: – É inequívoco, que fruto das dualidades mundanas, finalizadas as vinte e duas laudas da reportagem, pode-se traçar um perfil político de Davi Alcolumbre como um multimilionário em poder e influência na seara política desde então.
Para tanto, basta fundamentar-se no fato de que, sobre a escola que escolheu seguir na Câmara Alta, ele aprendeu como usar o poder de fato – quase o “poder total” – nos caminhos da “pantanosa”, além de seca Brasília, qual um “coronel”, oligarca, fisiológico, clientelista e adepto do patrimonialismo típico e registrado na obra sociológica brasileira do século XX.
Vencedor – Davi, até aqui, chegou lá, ainda mais vezque se olhe para o estado minúsculo e periférico em importância e poder político que, até o governo herdado de José Sarney, fora um antigo Território Federal com indicadores de pobreza e baixa densidade demográfica, sempre oscilando entre os últimos dentre as unidades da federação, nos índices socioeconômicos dispostos no IBGE.
“Fenômeno” – Dito isso, nesses perfis já tradicionais da publicação que vai completar duas décadas de existência em outubro deste 2026, chamados de “Vultos da república”, que já ajudaram a derrubar ou revelar figurões e seus negócios pra lá de suspeitos, lê-se que suspeitas e acusações de participação em escândalos e versões mal contadas, acompanham a vida pública de Davi Alcolumbre desde que elegera-se em 2002 deputado federal, então no meio do seu primeiro mandato político como vereador de Macapá.
Brasil brasileiro – Com o que fora revelado ali, um forasteiro ou ET que seja capaz de ler a reportagem da revista, decerto restará incrédulo como pode um político que se diz novo, com práticas tão velhas, ter chegado tão longe. Todavia, não fossem as escolhas dos seus pares e apoiadores, jamais ele teria sido eleito presidente do Senado, sendo eleito novamente seis anos depois.
De trás pra frente, não há confusão das grandes em que não apareçam as suas digitais, quer nos bastidores, quer por meio dos seus indicados, parentes e prepostos. Para ele, não existe essa de vácuo de poder. Sua sede por cargos e defesa de interesses pessoais e verbas é reconhecida em todos os espectros da política brasiliense; do Parlamento, ao Executivo, passando pelo trânsito, desenvoltura e relacionamento com amplos setores do Judiciário.
Onipresente – No perfil de fôlego, padrão piauí, a questão fática, a quantidade de provas documentais citadas, os testemunhos em “on e off”, votações e negociações públicas e políticas que resultaram em Orçamento Secreto, Emendas do Relator, duto de 28 bilhões em verbas públicas para onde não se sabe para onde foi e, mais recentemente, os escândalos do INSS e do Banco Master, para onde quer que se aponte enfim, Davi Alcolumbre tem seu nome citado direta ou indiretamente.
Na parte final da matéria há uma constatação fática – mais uma -, e a conexão com a obra seminal sobre a figura do coronel, do saudoso e eminente Victor Nunes Leal. Seu livro, “Coronelismo, enxada e voto”, de 1948. Das ironias e coincidências da vida, o autor foi ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), cassado pelo AI-5, de 13 de dezembro de 1968, publicado naquela noite, data e período do nascimento de Alexandre de Moraes, o supremo enrolado até o último fio raspado da sua careca “estilo Ronaldinho”, no escândalo do Banco Master, segundo revelado pelo jornalista Augusto Nunes. O trecho:
Governador de facto – “Com sua influência no governo local, nos principais órgãos de controle e na Justiça estadual, com seus aliados ocupando cargos em empresas públicas e autarquias e seus múltiplos tentáculos em Brasília, e com sua notável “política de grupo, de entrega”, Alcolumbre é tratado como governador de facto do Amapá, reavivando a figura histórica do coronel, descrita no clássico Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes Leal.
Gravíssimas – No que se refere às revelações e rolos com dinheiro público que constam no texto,desde que Alcolumbre fora eleito deputado federal em 2002, é óbvio que tratam-se de questões delicadas e comprometedoras sobre a sua atuação pública.
O modus operandi e as consequências, pra citar somente desses dois últimos escândalos, o do INSS e do Master, a parceria com o Careca do INSS, o rombo (ou roubo) de 400 milhões no Instituto de Previdência do Amapá, ambos dão uma breve medida das razões que o fizeram e fazem conspirar contra a CPI que se encerrou, do INSS, e a que ele veta dia e noite, a do banco responsável pelo rombo de (ou roubo) de 50 bilhões e suas festas, surubas e conexões pra lá de tóxicas e lesivas ao interesse coletivo à aposentadoria de incautos idosos e toda sorte de investidores lesados.
Dual – Seu retrato é traçado contando as origens da sua família em Macapá, seu lado bonachão e o inverso, levando à a reflexão de que na vida, de nada adianta apenas apontar o dedo se achando capaz de definir alguém. Afinal, quem somos nós? Numa democracia de verdade, resta ao cidadão ter direito de opinião. E como disse Einstein, tudo é relativo.
Davi Alcolumbre é um fenômeno político e isso já se disse aqui. Todavia, antes de passar ao que reproduz a reportagem como um todo, convém destacar duas passagens do texto que tratam da promessa de campanha e da primeira fala do senador após a primeira vitória, aquela de 2019.
Discurso novo – Primeiro, Após eleito em2019 presidente do Senado, a afirmação de que ele prometia acabar com a divisão entre alto e baixo cleros, atendendo aos pares de maneira igualitária, quando “pedia uma chance para renovar a política, apresentando-se como um jovem senador cheio de energia”, diz a revista.
Velhas práticas – Segundo, também revela o texto, “(sentado) na cadeira de presidente, tomou ar, suspirou aliviado, foi aplaudido de pé pelo plenário e, em seu primeiro pronunciamento, apresentou-se como o que há de novo na política do país, prometendo superar “os conchavos das elites partidárias.”
Donde se constata, ao ler a matéria, que ele agia e permanece agindo exatamente de maneira contrária, empiricamente falando, na sua maneira de presidir o Senado federal. Com vocês, um resumo das 22 laudas do perfil de Davi Alcolumbre.
O bonachão – “O senador Davi Alcolumbre é um bonachão. Gosta de boa comida, boa bebida, música alegre. Na juventude, depois de encerrar o expediente na loja dos seus pais, a Shalom Autopeças, ligava as caixas de som automotivo e convocava os amigos para uma festa com música alta e bebida farta ali mesmo, na calçada da loja”.
Esse é um Davi Alcolumbre, o bonachão. Há outro.
Beto Louco – Segundo o portal UOL, as canetas Mounjaro que ele distribhuía entre colegas a partir de 2023, eram presentes de um personagem radioativo, o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, hoje foragido da Justiça por falcatruas no mercado de combustíveis e suspeitas de ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país. Era, outra vez, uma modesta mostra de sua rede explosiva de relações pessoais.
Cartão de visitas – Logo na estreia em Brasília, seu nome apareceu em gravações interceptadas pela Polícia Federal, nas quais o então prefeito de Macapá e um empresário atribuíam ao jovem deputado a definição de valores de emendas parlamentares destinadas a obras públicas com licitações fraudulentas. A investigação não avançou.
Em 2013, reapareceu em interceptações telefônicas, desta vez em conversa com o doleiro Fayed Traboulsi, participando de um esquema de lavagem de dinheiro e desvios de fundos de pensão. As provas acabaram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.
Davi, primo de Pierre – David Samuel Alcolumbre Tobelem – ele usa a grafia “Davi” e o sobrenome da mãe – vem de uma família de judeus marroquinos que chegaram ao Brasil no início do século XX.
No Amapá, a família Alcolumbre transformou-se numa potência local. Tem 35 empresas em atividade, cujo capital social remonta a 35 milhões de reais. O império dos Alcolumbre inclui 16 postos de combustíveis, 4 emissoras de rádio e tevê, 1 construtora, 1 metalúrgica, 4 empresas agropecuárias, 4 imobiliárias, lojas de variedades, 1 supermercado, 1 terminal portuário, 1 factoring e até 1 cemitério.
Da penca de tios e primos, Alcolumbre se aproximou de Pierre, filho do tio Alberto. Ele foi registrado em cartório como filho dos avós – razão pela qual é chamado de “tio Pierre”, quando na verdade é primo. O patrimônio de Pierre explodiu depois da primeira eleição de Alcolumbre para deputado federal, em 2002.
Das dezenove empresas em seu nome e de seus filhos, catorze foram abertas a partir de 2003, com um capital social, somado, de 19 milhões de reais. São imóveis rurais de quase 10 mil hectares, parte deles sobrepostos a um assentamento rural do Incra e a um quilombo. Uma parte das terras foi adquirida por Pierre com depósitos de dinheiro vivo na boca do caixa, feitos em Belém por uma beneficiária do auxílio emergencial pago durante a pandemia de Covid.
Derrota e depré – Depois de quatro anos de uma atuação tímida no Senado, Alcolumbre lançou-se candidato ao governo do Amapá – cargo que almeja desde o início da vida pública.
O baque – Um mês depois, o primo Pierre teve motivos para comemorar: comprou, de uma só vez, seis salas comerciais no sétimo andar do edifício The Office Araguary, um dos mais modernos da capital amapaense. Pagou a módica quantia de 700 mil reais à vista e em dinheiro vivo, de acordo com as escrituras registradas em cartório. Em uma das salas funciona o escritório político de Alcolumbre.
Sete pessoas ouvidas pela piauí sob anonimato para evitar retaliações afirmam que Pierre, na prática, opera em nome de Alcolumbre nos negócios.
Apesar da derrota, Alcolumbre também ganhou motivos para celebrar no final da campanha de 2018. Ele soube, dias depois, que ele precisaria assumir a presidência do Senado interinamente, já que era o terceiro suplente da Mesa Diretora e todos os demais senadores na linha de sucessão haviam perdido o mandato nas urnas.
No final do ano, durante um jantar, chamou num canto o colega gaúcho Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil, e plantou a semente: Será que o futuro presidente Jair Bolsonaro não gostaria de apoiá-lo à presidência do Senado? No dia seguinte, Lorenzoni levou a proposta a Bolsonaro, que nem se lembrava do senador amapaense e hesitou.
“Chefe, deixa eu dizer uma coisa para o senhor: o maior construtor de relações do Congresso se chama Davi Alcolumbre”, Lorenzoni lembra de ter dito. “É um craque. Ele abraça todo mundo e as pessoas gostam dele de graça.”
Alcolumbre prometia acabar com a divisão entre alto e baixo cleros e atender todos os colegas de maneira igualitária. Pedia uma chance para renovar a política, apresentando-se como um jovem senador cheio de energia.
Escola pefelista – Na cadeira de presidente, disse: “Obrigado, meu Deus”, finalizou, com a voz embargada. “Me dê sabedoria para daqui desta Mesa conduzir o destino do Brasil.”
Assumiu o posto como quem dirige um trator. Demitiu, de uma só vez, 150 funcionários do Senado, incluindo até garçons, o pessoal da copa e servidores ligados a políticos do MDB.
Fatura e utilitarismo – Nos primeiros meses do novo comando do Senado, Lorenzoni, já empossado na Casa Civil, entendeu que o apoio de Alcolumbre não era gratuito. A conta chegou assim que o governo de Bolsonaro começou a colher os resultados positivos da aliança com o senador.
“Como ele é um utilitarista, para trabalhar tem que ter a diretoria de não sei do quê, da Caixa Econômica, do Banco do Brasil… Se puder, ele pede o lugar inteiro”, disse Lorenzoni à piauí em julho passado, num café de Brasília. “Naquela época, o Davi queria o mundo.”
Emplacou aliados na Agência Nacional de Mineração, no Conselho Nacional do Ministério Público, na Agência Nacional de Saúde Suplementar, no Banco do Brasil, no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, na Comissão de Valores Mobiliários, na Agência Nacional do Petróleo, nos Correios, na Agência Nacional de Telecomunicações e segue a lista.
Nasce o orçamento secreto – De saída, reuniu os líderes dos partidos e anunciou que tinha 150 milhões de reais em emendas “dele” para cada bancada distribuir entre seus integrantes, o que dava cerca de 2 milhões por senador. Orientou que cada um fizesse as indicações do destino do dinheiro por meio de ofícios. Era o embrião do que mais tarde viria a ser conhecido como “orçamento secreto”.
Também conseguiu aprovar um projeto de sua autoria que incluiu o Amapá na área de atuação da Codevasf, a principal destinatária das emendas do orçamento secreto.
À semelhança do que o deputado Arthur Lira (PP-AL) fazia na presidência da Câmara, Alcolumbre também integrou a turma que promoveu uma farra ilimitada no Congresso com os recursos orçamentários.
Farra de 28 bi – Calcula-se que, entre 2020 e 2022, período em que existiam as chamadas “emendas de relator”, cerca de 28 bilhões de reais saíram pelo escaninho do orçamento secreto, ou seja, verba que os parlamentares despachavam para onde bem entendessem sem ter que se identificar, com sinais eloquentes de desvios do dinheiro pelo meio do caminho.
Emendas de Comissão – Assim, em fevereiro de 2021, quando deixou a presidência do Senado e tomou posse no comando da Comissão de Constituição e Justiça, Alcolumbre manteve seus métodos e seu controle na distribuição das emendas. Quando não era atendido em seus pleitos junto ao governo, jogava pesado.
Mendonça e Aras – No movimento mais evidente de sua gestão na CCJ, travou por quase cinco meses a votação da indicação de André Mendonça para ministro do STF. Queria que o indicado fosse Augusto Aras, então procurador-geral da República. (Até hoje, o ministro André Mendonça e o senador não se bicam.
Rachadinha – A passagem de Davi Alcolumbre pela presidência do Senado ocupou muitas páginas do noticiário político, mas também foi generosa em notícias policiais. Seu gabinete, por exemplo, chegou a ser flagrado aplicando o golpe da rachadinha, o mesmo que alçou à fama o senador Flávio Bolsonaro.
Rememorando – o parlamentar contrata alguém para trabalhar em seu gabinete por um determinado salário, mas pede que o novo funcionário devolva todos os meses uma parte da remuneração. Seis mulheres pobres, moradoras dos arredores de Brasília, contaram à revista Veja, em reportagem publicada em 2021, que aderiram a uma proposta de rachadinha feita pelo senador e seu chefe de gabinete da época, Paulo Boudens.
Como o nome de Alcolumbre surgiu em meio à investigação, a Polícia Legislativa teve de encaminhar as informações coletadas à Procuradoria-Geral da República, na época chefiada pelo amigão Augusto Aras. O órgão, por sua vez, excluiu Alcolumbre da investigação e fez um acordo com seu chefe de gabinete, que pagou 2 milhões de reais à União em troca da suspensão do caso.
INSS e Master – Os nomes do senador e aliados aparecem também em dois dos maiores casos de corrupção em curso no país: o desfalque do INSS e a fraude histórica do Banco Master. Em agosto do ano passado, quando tentava salvar seu banco da liquidação, o banqueiro Daniel Vorcaro apareceu na residência oficial de Alcolumbre, de onde saiu à meia-noite.
Depois, em troca de mensagens acessadas pela Polícia Federal, Vorcaro comentou que a reunião fora boa e mencionou que um novo encontro aconteceria dias depois. A intimidade entre o senador e o banqueiro não é o único laço.
O nome de Alcolumbre também apareceu no rolo que envolve a Amprev, fundo de pensão dos servidores do Amapá, que investiu
400 milhões de reais nos papéis podres do Master. É o segundo fundo de pensão que mais aplicou no banco. A operação da Amprev foi realizada sob a presidência de Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Alcolumbre indicado para o cargo pelo próprio senador.
Atualmente, Jocildo Lemos, que já esteve preso sob a acusação de fazer tráfico de influência, despacha numa sala comercial em Macapá. Onde? Numa daquelas seis salas que foram compradas pelo primo Pierre no edifício The Office Araguary. (Depois de sofrer uma operação de busca e apreensão em fevereiro deste ano, Jocildo Lemos renunciou à presidência da Amprev.)
A influência de Alcolumbre sobre o fundo de previdência não se limita a Jocildo Lemos. O senador também indicou para a entidade seu irmão, Alberto Alcolumbre, que atuou como conselheiro fiscal entre 2023 e 2025, período em que o investimento de 400 milhões foi feito.
As conexões do senador com o Master talvez expliquem sua resistência em instalar a CPI para investigar o escândalo.
O União Brasil de Alcolumbre está com os dois pés fincados no Master.
Rueda – Um dia depois de negar publicamente “qualquer relação” com Vorcaro, dono do finado Master, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, admitiu ao repórter Breno Pires, da piauí, que seu escritório de advocacia tinha contrato com o banco, para o qual fez “mais de 1 000 audiências” e “aproximadamente 400 acordos”. Não disse quanto recebeu pelos serviços. No caso do INSS, Alcolumbre também comparece
Alcolumbre e Careca – A CPI que investiga o esquema de corrupção identificou que um ex-chefe de gabinete do senador recebeu 3 milhões de reais do personagem central do escândalo – o empresário e lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
O ex-assessor é o mesmo Paulo Boudens da “rachadinha”, hoje lotado no Conselho de Estudos Políticos do Senado. Em setembro do ano passado, a CPI do INSS recebeu requerimentos para convocar Boudens a prestar depoimento.
Nenhum deles foi apreciado pelos integrantes. Seu sigilo bancário chegou a ir à votação, mas a maioria dos membros da CPI votou contra a medida. Antes disso, Alcolumbre decidiu decretar sigilo de 100 anos nos registros de entradas do Careca do INSS no prédio do Congresso.
A medida impediu a CPI de saber quem o lobista costumava visitar em suas visitas ao Parlamento. E Alcolumbre tem feito tudo – até o que não está ao seu alcance – para enterrar a investigação do INSS o quanto antes. Recebeu uma ordem do ministro André Mendonça, do STF, para ler o documento que mandava dar mais prazo para a CPI trabalhar.
Tinha 48 horas para fazê-lo. O senador simplesmente ignorou a ordem judicial e não leu o documento. Tinha um duplo temor. Se reunisse o Congresso para prorrogar a CPI do INSS, Alcolumbre também teria que ler outro documento, aquele que instala a investigação mais temida por todo o mundo político: a CPI do Master. No dia 26 de março, o STF derrubou a ordem de prorrogação emitida por André Mendonça.
Reeleição e perseguição – A matéria cita, também com profundidade, como Alcolumbre cooptou seu antigo adversário, Waldez Góes, para o seu projeto de reeleição, e a escaramuça contra o ex-prefeito de Macapá, Dr. Furlan, que foi afastado pelo ministro Flávio Dino, junto com seu vice pouco antes do prazo de desincompatibilização, o que levou ele e seu vice a renunciarem em seguida.
Prefeitura de Macapá – O grupo de Alcolumbre tomou a prefeitura como que de assalto. Entraram no prédio e ordenaram que servidores de pelo menos quatro secretarias – Finanças, Saúde, Educação e Comunicação – retirassem seus pertences imediatamente e passassem senhas de acesso.
Segundo um servidor que falou com a piauí em condição de anonimato, eles pediram a relação dos contratos firmados por essas pastas, com a intenção de revisá-los, e trocaram a fechadura das portas. Em que pese seu temor inicial de um ano ruim, 2022 foi vitorioso para Alcolumbre. Não só renovou seu mandato no Senado, como apoiou o candidato certo para o governo do Amapá.
Raposa no galinheiro – Clécio Luís, eleito pelo Solidariedade e hoje também filiado ao União Brasil, venceu com 53,7% dos votos no primeiro turno.
Nos últimos anos, o senador estendeu seu domínio para mais um espaço típico do coronelismo: a regularização fundiária do Amapá, um estado jovem, que só deixou de ser território federal em 1988.
Aconteceu o seguinte: em 2019, quando ocupou a Presidência da República interinamente por dois dias, Alcolumbre assinou um decreto regulamentando os termos pelos quais a União pode se desfazer de suas propriedades urbanas e rurais no estado.
Cunhada – A operação passa pela Superintendência do Patrimônio da União no Amapá. Há anos Alcolumbre instalou no comando da SPU um dos seus, no caso, a cunhada Leily Gonçalves de Andrade. Com isso, qualquer interessado em comprar imóveis ou terras no Amapá em posse da União precisa negociar com o órgão – na prática, com Alcolumbre.
Alcolumbre não quis dar entrevista à piauí.
19 perguntas – A revista, então, enviou uma lista com dezenove perguntas ao senador, que respondeu todas elas, embora nem sempre abordando o ponto central. O tema em que o senador mais se alongou diz respeito às emendas do orçamento secreto. A respeito de pressões junto ao Judiciário para prejudicar adversários, o senador negou qualquer movimento neste sentido.
Lula 3 – De volta a Brasília, Davi Alcolumbre participou da transição do governo Bolsonaro para o governo Lula, no fim de 2022. Com seu jeito despojado e brincalhão, logo conquistou a simpatia do presidente.
O governo sabia que Alcolumbre exercia mais influência sobre os senadores do que o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Nos bastidores da transição, Alcolumbre pediu que todas as indicações de segundo escalão que precisam passar pelo Senado – agências, conselhos – fossem feitas pela própria Casa, método que ele implementou nos tempos de Bolsonaro.
O senador aproveitou para indicar, em sua cota pessoal, dois nomes para compor o primeiro escalão. Em fevereiro de 2025, a recondução de Alcolumbre à presidência do Senado não teve nada a ver com a tumultuada eleição de 2019.
Sem adversários, ele venceu com 90% dos votos.
Um ex-senador do alto clero – que pediu para não ser identificado, pois atua como consultor na iniciativa privada em Brasília – contou à piauí que já convidou Alcolumbre diversas vezes para debates públicos e eventos temáticos com empresários.
“É um presidente de Câmara de Vereadores. Mas o Senado também virou uma Câmara de Vereadores. Rebaixou-se muito o nível de discussão, de tema, de agenda.”
Em maio do ano passado, quando o governo Lula publicou dois decretos alterando as alíquotas do IOF, os parlamentares se insurgiram contra a iniciativa dizendo que interferia nas atribuições do Legislativo. Como o governo vinha atrasando o pagamento das emendas parlamentares, Alcolumbre aproveitou a crise dos decretos para o que realmente interessava: abrir uma brecha para pressionar pelo dinheiro. Junto com Hugo Motta, articulou a derrubada dos decretos presidenciais.
“Que esse exemplo do IOF, dado pelo governo federal, seja a última daquelas decisões tomadas pelo governo tentando de certo modo usurpar as atribuições do Poder Legislativo.” Em mais de trinta anos, foi a primeira vez que o Congresso aprovou um decreto legislativo para anular decretos do Executivo, que tem competência para publicá-los.
Depois da derrubada, Alcolumbre fez um longo discurso. Finalizou dizendo que o papel do governo “agora é, a partir de amanhã, construir a agenda do Brasil e dos brasileiros, sem açodamento e, se possível, conversando um pouco mais com o Congresso brasileiro”. Dois dias depois, o governo liberou o pagamento de 474 milhões em emendas – valor recorde do ano – para 149 parlamentares.
Entre eles, Davi Alcolumbre foi o que mais recebeu recursos. No fim, o governo superou a crise, mas saiu desgastado. Davi Alcolumbre mundiou, mundiou e mundiou a crise, e levou 20 milhões de reais do orçamento. Até agora, não há notícia de que o primo Pierre tenha comprado mais salas comerciais.
Frases:
“Você vai ficar com raiva do cara que te abraça e beija sua mão?”, senador Plínio Valério (PSDB-AM).
Ao comentar sobre o comportamento de seu antigo adversário, o ex-senador Gilvam Borges, que perdeu para Alcolumbre em 2014, recorre a um verbo próprio da Região Norte: “mundiar”, que segundo ele significa algo como espreitar, rondar, aturdir.
“Quando tu vês uma cobra na mata cercando a presa, ela fica rondando e rondando os bichos até deixá-los zonzos. Aí, ela ataca”, compara. “O Davi mundia bem.” Mundiou Sarney, chegou ao Senado e, com a posse de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, Alcolumbre percebeu que havia mais degraus a galgar”, conclui.
Planta no deserto – Expressão usada por um ex-senador – que pediu para não ser identificado – ao descrever Davi Alcolumbre. Significado: a planta que cresceu na terra arrasada do governo Bolsonaro.
Fonte: O Amazônico – Toni Remigio – Crédito foto ilustração: reprodução Facebook Davi Alcolumbre