Segundo a médica, o fato de algumas crianças atingirem o tamanho da cabeça dentro dos padrões considerados normais está fazendo com que o problema da atrofia cerebral seja aparentemente escondido

Médica é responsável por confirmar associação da doença com microcefalia. (Foto: Gustavo Xavier / G1)
Em dezembro do ano passado, a pesquisadora paraibana especialista em medicina fetal Adriana Melo, alertou sobre possível surto da zika em 2016. E a alerta da especialista se confirmou.
Adriana Melo foi quem tomou a iniciativa de coletar o líquido amniótico de duas gestantes e enviar para ser analisado no Rio de Janeiro, no Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). A médica diz que começou a suspeitar da relação entre o vírus e a microcefalia após conversas com profissionais de Pernambuco, estado com mais notificações da malformação no Brasil.
Esta semana a pesquisa desenvolvida pela especialista paraibana foi destaque na nacional, a exemplo do Fantástico e do Jornal Nacional. Na reportagem, outros pesquisadores destacaram o trabalho iniciado pela especialista paraibana.
Conforme alertou a pesquisadora, os exames realizados nos últimos meses mostram que algumas crianças estão se desenvolvendo na barriga das mães e nascendo com o tamanho do crânio normal, mas, na verdade, a cabeça está com mais liquido do que cérebro. Por isso, problemas de atrofia cerebral, possivelmente relacionados a infecção pelo vírus da zika, estão sendo caracterizados como uma síndrome congênita do vírus da zika e não apenas pelo termo microcefalia.
Segundo a médica paraibana especialista em medicina fetal Adriana Melo, que está a frente de um estudo sobre a relação entre o vírus da zika e a malformação cerebral em bebês, o fato de algumas crianças atingirem o tamanho da cabeça dentro dos padrões considerados normais está fazendo com que o problema da atrofia cerebral seja aparentemente escondido.
Ela diz que o critério de medir a circunferência da cabeça criança não é suficiente, pois os bebês podem nascer com o tamanho normal e sofrer de atrofia cerebral. Atualmente o Ministério da Saúde considera microcefalia quando a criança nasce com menos de 32 centímetros de perímetro cefálico.
“Desde o começo nosso grupo de pesquisa concordou que não fosse usado esse termo microcefalia. A microcefalia significa atrofia cerebral, então o crânio não cresce porque o cérebro fica pequeno. Entretanto, às vezes o crânio pode crescer se dentro da cabeça houver mais liquido, como tem ocorrido agora”, ressalta a pesquisadora.
Somente na semana passada, três crianças acompanhadas pela médica paraibana morreram após nascerem com o cérebro atrofiado.
A preocupação maior da médica paraibana é que o fato das cabeças dos bebês estarem atingido o tamanho normal está criando uma expectativa nas gestantes, mas o problema continua. “Isso preocupa porque a mãe cria uma expectativa de que está tudo bem, porque a cabeça que estava pequena começa a crescer, atingido os 32 centímetros, mas não é bem isso. A atrofia cerebral continua, mas o tamanho da cabeça foi compensada por liquido”, explica Adriana Melo.
Ainda segundo a pesquisadora, os casos estão sendo investigados não pelo tamanho da cabeça, mas pelas alterações que estão sendo percebidas no cerebelo, dilatação dos ventrículos cerebrais e calcificações do corpo. “O que temos é uma síndrome congênita que independe do tamanho da cabeça. Essa atrofia no cérebro pode gerar outros problemas como atrogripose, malformação nos músculos a incapacidade das atividades motoras. Tudo isso ainda exige muito estudo e as respostas podem demorar anos para serem encontradas”, frisa Adriana Melo.
De acordo com boletim do Ministério da Saúde divulgado na última sexta-feira (12), a Paraíba tem 54 casos confirmados de microcefalia ou outras alterações do sistema nervoso central. Desse total, apenas dois tiveram relação confirmada com o vírus da zika. Outros 427 casos estão sendo investigados e 275 já foram descartados.
O estado da Paraíba é o quarto com o maior número de casos confirmados, ficando atrás apenas de Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Norte.
PBAgora