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Padre Ibiapina: O Missionário do Deserto – por André Aguiar

Estive recentemente no Santuário do Padre Ibiapina, que para quem não conhece, está encravado no brejo paraibano, ali precisamente no distrito conhecido como Santa Fé, município de Solânea, nos limites com Arara – PB.

As notícias de então já me haviam alertado a respeito do estado lastimável da situação hídrica da região, tendo como consequência as mazelas que essas estiagens provocam, notadamente, nas populações mais carentes, com o gravame do descaso das autoridades de plantão. 

Embora eu tenha sido afeito em tempos remotos aos temas que gravitam na agricultura, não é o motivo principal desse artigo, mas apenas para contextualizar, sabemos que o deserto brasileiro já é tão grande que equivale em dimensões ao tamanho da Inglaterra, superando limites de quase 130 mil quilômetros quadrados onde simplesmente não há mais atividade biológica nos solos: em tais condições, micro-organismos fundamentais para a sobrevivência das plantas não resistem, e assim vem acabando a vida na terra da região. Com temperaturas que se aproximam dos 50 graus, há partes do Semiárido que já se tornaram desertos de fato.

Mas vamos ao que interessa, que é o título desse artigo. Embora muito já tenha sido escrito e falado sobre a vida e obra do Servo de Deus, o Padre José Antônio de Maria Ibiapina, (1806-1883) o Missionário, o Apóstolo do Nordeste – Peregrino da Caridade, conhecido como Padre Ibiapina, aqui, meu intento, é meditar sobre a missão desse santo homem, principalmente inspirado no espírito natalino, onde somos convidados a, de certa forma, refletir sobre o ano que se finda e o que se avizinha. 

Para os que não conhecem a vida desse missionário do deserto, ele desenvolveu seu ministério nos estados da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, englobando dessa maneira um percurso de aproximadamente 7,7% do território nacional. Foi juiz de Direito, deputado e advogado. Padre Ibiapina foi ordenado aos 47 anos de idade em 1853. Após sua ordenação foi nomeado Vigário geral e provedor do Bispado, professor de Eloquência do Seminário de Olinda, porém conseguiu cedo a dispensa desses cargos realmente distintos e de confiança do chefe eclesiástico a fim de viajar, doutrinar, curar, educar e construir para o povo semiabandonado dos sertões, ministério esse que lhe ocupou os 30 últimos anos de sua vida. Entre 1875 e 1883, nos seus últimos anos de vida, Padre Ibiapina ficou quase paralisado e teve que permanecer no atual distrito de Santa Fé, localizado no município de Solânea e perto do município de Arara – PB, 155 km de João Pessoa, atualmente conhecido como Santuário de Santa Fé.

Pois bem. Foi na região semiárido nordeste brasileiro, (PB, PE, RN, CE e PI) que o Padre Ibiapina foi chamado a caminhar, dentre aqueles mais necessitados, do pão material e do pão espiritual, eram tempos de epidemia como os de hoje, era a Cólera, que chegou a matar centenas de milhares de pessoas em todo o mundo.

Ao contrário dos que fizeram a maioria dos ditos missionários de hoje, o Padre Ibiapina foi ao combate diretamente com os pobres, os mais carentes, tocando e convivendo, sofrendo junto em seus desertos, da alma e do corpo, ele não “ficou em casa”, um testemunho muito importante para nós.

No momento crucial da grande seca de 1887, o Servo de Deus Ibiapina, acolheu flagelados de varias regiões afligidos que vinham solicitar socorro em desespero. Ele não se fez de rogado, levou o povo a ação imediata, colocou a mão na massa, conduziu milhares de pessoas à construção em forma de mutirão (na época, inédito), resultando em 22 casas de caridade para abrigar e educar órfãos, auxiliando também aos necessitados com alimentos, vestimentas e medicamentos; 19 cemitérios durante as seguidas epidemias de cólera em virtude das secas; 20 Igrejas e capelas, sendo 3 restaurações; 10 açudes, tecnologicamente a maneira mais avançada de combater a seca na época. Hospitais também foram construídos pelo padre, sua obra é incomensurável.

Ele só poderia estar ébrio de Deus, talvez por isso abandonou uma promissora carreira jurídica e se dedicou ao sacerdócio, como disse o profeta:  “Eis que eu mesmo vou seduzi-lo, conduzi-lo ao deserto e falar-lhe ao coração” (Os 2,16).

Creio que no interior do ser humano, peregrino neste mundo, ecoa, ainda que em surdina, esse apelo ao deserto e ao silêncio, como condição de escuta e de encontro.

Os homens herdam, por assim dizer, um estilo de poder profano de viver, lastreado em inspirações pagãs, vivemos numa dicotomia. Foi ao perceber isso que o Padre Ibiapina escolheu a melhor parte, como fizeram todos os padres do deserto da Igreja, em todos os tempos.  

Há um erro, um engodo, no meu modesto entender, que o deserto produz somente “pensadores e pensamentos”, e muito menos apenas “pensamentos bonitos”. É bem mais provável que nele encontremos profetas incómodos e terapeutas da alma que não hesitam em pôr o dedo nas feridas mais profundas, nem receiam enfrentar os “demónios” mais ocultos que nos tentam. Tudo isto com o intuito primeiro de libertar e curar pela via da misericórdia. Esta, longe de ser uma espécie de carícia sobre as feridas da alma, é um remédio de graça que também exige trabalho e dor, como dão a entender tanto os Padres como as Madres do deserto: “Devemos acender o fogo divino em nós mesmos, com lágrimas e esforço”. dizia a madre Sinclética.

Diz-me uma palavra! Assim nasceram e ganharam forma os ditos dos Padres do Deserto. Contudo e rigorosamente falando, os Padres do Deserto deixaram bem mais do que escritos e conhecimento, deixaram-nos o sonoro e falante silêncio da “veri veritatis”, as suas obras falam aos homens de boa vontade pelos séculos dos séculos, como disse São Francisco, o de Assis, na Itália; “Pregue o Evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras”.

Sigamos os caminhos de Santa Fé, os passos de Jesus, que tão bem perseguiu o Missionário do deserto nordestino, o Padre Ibiapina.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Para Sempre seja Louvado!!!

Por André Aguiar

Em 21 de dezembro de 2021

Presidente da Fundação Padre Ibiapina

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