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O outro fogo: sobrevivente da Kiss encontra amparo na tocha olímpica

Mais de três anos depois, ele busca no esporte a paz para superar tragédia

EZEQUIEL

O fogo que ainda arde na memória de Ezequiel Corte Real não estala só para o mal, não crepita só tristeza. Ele também produz chamas de amparo. Nesta terça-feira, o gaúcho de 27 anos correrá novamente pelas ruas de sua Santa Maria natal – mas desta vez não terá um corpo sem vida nos braços: terá a tocha olímpica. Um dos maiores emblemas da dor e da união saídas da tragédia na boate Kiss, Ezequiel abrirá a travessia do símbolo dos Jogos pela cidade do interior do Rio Grande do Sul. Partirá com ela da Universidade Federal de Santa Maria, onde estudavam 112 das 242 vítimas do incêndio de 27 de janeiro de 2013.

Ezequiel foi uma das imagens mais marcantes daquela noite trágica. A foto em que ele aparecia carregando um corpo correu o planeta – foi capa de jornais mundo afora. No dia seguinte, ele teria a confirmação do que já imaginava: o homem que tentara salvar estava entre os mortos. O mesmo valeria para outros jovens que ele ajudou a resgatar – ele não sabe quantos foram (talvez uns 20, calcula), ele não sabe quem eram, ele não sabe quais sobreviveram. Só lembra de correr, correr e correr – no prefácio de uma história que ele espera terminar nesta terça, quando pretende usar um fogo para suplantar o outro.

– O que eu quero muito é não ser apenas o Ezequiel da Kiss. Quero ser o Ezequiel da tocha olímpica, o Ezequiel do esporte, o Ezequiel atleta.

O fogo que ainda arde na memória de Ezequiel Corte Real não estala só para o mal, não crepita só tristeza. Ele também produz chamas de amparo. Nesta terça-feira, o gaúcho de 27 anos correrá novamente pelas ruas de sua Santa Maria natal – mas desta vez não terá um corpo sem vida nos braços: terá a tocha olímpica. Um dos maiores emblemas da dor e da união saídas da tragédia na boate Kiss, Ezequiel abrirá a travessia do símbolo dos Jogos pela cidade do interior do Rio Grande do Sul. Partirá com ela da Universidade Federal de Santa Maria, onde estudavam 112 das 242 vítimas do incêndio de 27 de janeiro de 2013.

Ezequiel foi uma das imagens mais marcantes daquela noite trágica. A foto em que ele aparecia carregando um corpo correu o planeta – foi capa de jornais mundo afora. No dia seguinte, ele teria a confirmação do que já imaginava: o homem que tentara salvar estava entre os mortos. O mesmo valeria para outros jovens que ele ajudou a resgatar – ele não sabe quantos foram (talvez uns 20, calcula), ele não sabe quem eram, ele não sabe quais sobreviveram. Só lembra de correr, correr e correr – no prefácio de uma história que ele espera terminar nesta terça, quando pretende usar um fogo para suplantar o outro.

– O que eu quero muito é não ser apenas o Ezequiel da Kiss. Quero ser o Ezequiel da tocha olímpica, o Ezequiel do esporte, o Ezequiel atleta.

Ezequiel prefere não passar pelo número 1.925 da Rua dos Andradas. Não é o único. A quadra onde ficava a Kiss é excepcionalmente deserta para uma área tão central de uma cidade com mais de 200 mil habitantes – sobretudo à noite, quando cessa o vaivém das pessoas indo e voltando do trabalho. É fácil observar, ao se cruzar a esquina com a movimentada avenida Rio Branco, como o silêncio aumenta gradativamente conforme se caminha na direção da boate. A população de Santa Maria evita aquele lugar. Aquele lugar é uma cicatriz na pele de uma cidade. É uma queimadura – a pior delas.

E é uma ferida que precisa ser exposta. Mais de 200 pessoas morreram ali. A revolta está expressa nas paredes externas, nos portões de saída onde tantos e tantos jovens perderam a vida. Ali, há imagens de mãos pintadas em vermelho-sangue, como que representando o desespero final das vítimas. É de arrepiar, como também são de arrepiar as frestas – os pequenos espaços entre ferro e concreto que parecem sugar o observador ao interior da Kiss, ao horror daquela noite em que Ezequiel e seus amigos só queriam se divertir.

Quando o fogo começou, causado por um artefato que entrou em contato com a espuma do teto, o estudante de educação física da UFSM percebeu que era melhor sair logo dali. Mas manteve relativa calma. Viu que a maioria das pessoas, em pânico, procurou a saída principal – e resolveu fazer um caminho alternativo. Mesmo assim, houve tumulto, e ele, grande e forte, acabou saindo mais rápido no meio do empurra-empurra. Ao chegar à rua, viu dezenas e dezenas de jovens em pânico. Deparou-se com o caos. E aí decidiu que não poderia simplesmente ir embora.

– Depois que vi o tamanho do que estava acontecendo, consegui sair por uma porta paralela, quase de frente para o bolo de pessoas que estavam ali, como se fosse uma manada. Quando saí, caí por cima de umas pessoas. E vi caírem umas duas ou três gurias. Passei por cima delas e fui para a rua. Eu voltei para puxar uma. Quando voltei para puxar outra, já não tinha mais. Sabe? Me deu um pouco de desespero e eu passei por cima de uma pessoa. No pânico, as pessoas passavam umas por cima das outras. Fiquei com um peso muito grande na consciência. Me senti responsável de voltar e ajudar as pessoas.

Foi o que ele fez. A ideia era resgatar as meninas, por serem mais leves, mas ao chegar lá, encontrou o corpo de um homem por cima delas – o homem que ele carregou rua afora. Depois, voltou repetidas vezes, geralmente puxando pessoas que estavam perto da saída – levando-as à calçada. Nem pensava direito: só agia.

– Eu só queria tirar mais e mais e mais pessoas. Queria ajudar mais e mais pessoas.

Para isso, Ezequiel tinha uma vantagem física. Ele sempre foi atleta. Praticou futebol, basquete, atletismo, handebol. Já era acadêmico de educação física e já cultivava corpo de fisiculturista. Deixou-se levar pelo instinto. Outros, que fizeram o mesmo, que tentaram voltar para salvar quem estava dentro da Kiss, depois morreram – por terem inalado fumaça tóxica. Mas Ezequiel nada sentiu. Não teve sequela alguma.

Exceto, claro, reflexos psicológicos. Nos primeiros dias, ficou extremamente sentimental – na tragédia, perdeu muitos conhecidos, um colega de turma e uma prima. Depois, teve uma espécie de bloqueio. Tornou-se frio. Não aceitava sequer o carinho da mãe – teve que sair de casa. Nas ruas, era parado pelas pessoas, recebia agradecimentos, era tratado como herói. E mal reagia àquilo. Não gostava.

– Quando eu saía na rua, vinham familiares me cumprimentar, me agradecer, mesmo alguns que tinham perdido parentes. E eu não conseguia esboçar sentimento. Tive que sair da casa dos meus pais porque não conseguia receber um abraço da minha mãe. Não conseguia andar na rua, porque as pessoas vinham me agradecer, e eu achava que não tinha feito nada. Os psicólogos falaram que eu estava traumatizado. Eu não acreditava naquilo. Quem estava passando por momento difícil eram os pais que perderam dois, três filhos.

Com o tempo, Ezequiel foi retomando sua rotina. E depois de viver uma situação de quase morte, encontrou no oposto dela a tranquilidade para seus tormentos: no esporte.

O SEGUNDO FOGO

Sobreviver ao incêndio da boate Kiss ensinou Ezequiel a não supervalorizar problemas banais. Se algo o incomoda, ele tem a solução: vai suar.

– Minha vida mudou completamente. Hoje, eu acordo e agradeço. Qualquer crise que eu passe, olho lá para trás e vejo que estou vivo hoje. Não existe problema depois de viver aquilo. Na pior situação que eu estiver, vou praticar meu esporte, vou cuidar de mim. O esporte é meu refúgio: é onde me encontro – diz ele.

Ezequiel trabalha como instrutor de academia. Mover-se está no sangue – o pai jogou futebol em tudo que foi time amador da região, e a mãe sempre foi muito ligada ao esporte. Ele cresceu vendo Olimpíadas e hoje batalha para ver o fisiculturismo tornar-se esporte olímpico – seu grande sonho é participar dos Jogos como competidor. Por tudo isso, emocionou-se quando foi selecionado para conduzir a tocha.

– Conduzir uma tocha olímpica, para mim, que sou um atleta, tem um significado imenso. E ainda vou passar do lado da minha casa. Meus amigos vão estar lá. Será um sonho que não será só meu.

Mas Ezequiel acredita mesmo é que o fogo olímpico poderá fazê-lo superar a tragédia da Kiss. Esquecer, ele sabe que jamais esquecerá. Mas ele pretende usar o fogo de hoje para apagar o fogo de ontem – e fazer com que a chama ganhe um novo sentido em sua vida.

– A tocha olímpica vai mudar isso. Ela tem um significado totalmente diferente. Quero que tenha um significado maior, de vida, de esperança, de oportunidade. Quero que isso tenha um significado maior do que aquilo que vivi.

 

GLOBO ESPORTE

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