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Judeus, nossos irmãos mais velhos – Por André Aguiar

Por óbvio, as festas juninas não foram como os anos anteriores, mas nem por isso se deixou de celebrar “entre portas” com um forrozinho, canjica, pamonha e milho, e outras guloseimas com a família reunida e as cautelas de praxe.

Foi nessas lives da vida, através das redes sociais, notadamente assistindo as quadrilhas juninas, que percebi ainda mais a beleza de suas cores, a harmonia dos passos e gestos uniformes, numa cadência encantadora de palmas, vai e voltas, pra frente e pra trás, entre os túneis, homens e mulheres que formam pares sorridentes, a alegria nas faces dos participantes, me despertou para uma similaridade do casamento matuto com o casamento judeu, seja pelas danças e passos, seja pelo motivo das festas, qual seja o união do amor entre homem e mulher, dessa celebração milenar, primitiva até…fui pesquisar…,embora soubesse que existem semelhanças com as danças dos bailes da corte francesa, fiquei curioso.

Mas tal fato não deveria ser surpresa, embora os judeus e cristãos discordem em pontos importantes, há entre nós uma aliança cultural e de fé, por isso se diz, nomeia-se, civilização judaico cristã.

Ora, é consabido por todos que Jesus era judeu, nasceu entre eles, os nossos pais são os mesmos, e acima de tudo, O Deus É O Mesmo, eles são nossos irmãos mais velhos.

A expressão “irmãos mais velhos” dos cristãos foi proferida por João Paulo II durante sua visita histórica à sinagoga 35 anos atrás (1986), continuou com o Papa Emérito Bento XVI em 2010 e foi repetida pelo Papa Francisco no ano de 2016.

Pois bem, dito isso, foquei minha pesquisa na presença do povo judeu no nordeste brasileiro, levando em consideração alguns comportamentos e costumes.

Conhecido como um povo culto, durante o governo dos reis da Primeira Dinastia Portuguesa, muitos judeus fizeram parte das cortes, ocupando altos cargos. Em Portugal dedicavam-se especialmente às atividades econômicas que envolviam trabalhos manuais e financeiros.

Foi de lá que vieram a maioria deles para o nordeste do Brasil, aliás, desde as caravelas de Cabral e ainda quando da escolha dos donatários das capitanias hereditárias, eles marcaram presença na Terra da Santa Cruz. Sabe-se ainda que alguns outros foram expulsos pelos cristãos e comerciantes portugueses, enfim, vieram atraídos pelas nossas riquezas.

Na verdade, eles foram forjados nas adversidades e perseguições à sua fé em um Deus único e suas leis impostas com muito rigor entre eles e nos seus relacionamentos com os outros povos.

Talvez esses fatos os tenham capacitado a sobreviverem em terras áridas, às guerras e catástrofes, pragas e doenças, isso também é característica do povo Cristão, outra similitude que nos une.

Exaltados por sua capacidade de serem grandes comerciantes espertos, o povo judeu nunca investe em uma “coisa” só, por exemplo, tendo ouro e pedras preciosas como base, sempre escolhem outras duas atividades ou mais, pois se uma ou outra não lhe dá retorno desejado, tem nos metais a sua garantia de renda e retorno.

Ademais, por serem investimentos (ouro e pedras preciosas) fáceis de transportar, sendo eles um povo nômade por natureza, estando onde estiverem, tornam-se investimentos de fácil liquidez.

Eles chamam de triângulo da prosperidade o equilíbrio emocional, financeiro e físico, como se fosse um triângulo equilátero, cada um dos pilares possui o mesmo peso e precisa ser trabalhado igualmente para gerar os resultados esperados, por assim dizer uma regra de vida, que tem dado certo, haja vista que são historicamente um povo muito próspero.

Mas vamos voltar à presença deles no nordeste do Brasil.

Um dos ícones conhecidos que por essas bandas se destacou foi Branca Dias, na qual fugindo para o Brasil com o marido, tornou-se senhora de engenho (já chegou rica, conclui-se que trouxe com ela essa riqueza de Portugal), aquela senhora reunia judeus para praticar a religião por debaixo dos panos, e ainda fundou a primeira escola para meninas do Brasil.

A primeira vez em que houve liberdade para que os judeus praticassem as suas tradições, incluindo as religiosas em território brasileiro, data de 1630, quando da ocupação Holandesa no nordeste do Brasil, chamada Nova Holanda.

Uma das razões para isso é que no século XV, na Holanda, a liberdade de culto já era garantida, motivo que levou vários judeus a escolherem este país como destino. Assim, quando os holandeses conquistaram o território que hoje corresponde aos Estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, além de muitos dos que ali desembarcaram serem também judeus, passou-se a seguir a regra que valia em terras holandesas.

Foi justamente no período da presença holandesa no nordeste brasileiro que foi construída a primeira Sinagoga das Américas. Datada de 1636 ela ainda existe e está situada na cidade de Recife, aqui vizinho da gente. A terra dos Guararapes abriga ainda o primeiro cemitério judaico do continente americano.

Eles os judeus, foram responsáveis por reformas estruturais na cidade de Recife, como a ponte Maurício de Nassau (a maior do Brasil até então, com 180 metros), ligando a ilha de Antônio Vaz à cidade.

Acontece, porém queo período de liberdade judaica no Brasil, durou pouco. Após a retomada do controle da região pelos portugueses, aos judeus que ali viviam foi dado um prazo para que deixassem o território.

No processo de fuga, destacou-se um grupo de 23 judeus que partiu de Recife rumo a Amsterdã, mas que após diversas desventuras no caminho, terminou por chegar à Nova York, na época conhecida com Nova Amsterdã, foram, portanto, fundadores daquela cidade americana.

Mas o interessante é ver nos sertões nordestinos e passeando pelo seu interior, – digo do Maranhão à Bahia -, contemplar os rastros de sua passagem por essas bandas.

Vejamos por exemplo o hábito de cavar um buraco para esconder o sangue de animais ao serem sacrificados para alimentação, que é observado entre os judeus e algumas comunidades nordestinas.

Não se pode deslembrar do nosso hábito de comer tapioca, cuscuz, carne de sol e macaxeira, faz um kidushizinho – cerimônia religiosa judaica celebrada com vinho – com cachaça.

Os cristãos-novos, judeus convertidos à fé cristã, também chamados marranos, adentraram o sertão e para lá levaram as tradições e costumes do judaísmo, como a forma de assar a carne com espeto de pau, e a forma de prepara-la, sempre bem seca e bem assada, nunca mal passada, ou sangrando. Ademais, interessante observar o hábito de matar a galinha cortando o pescoço, por exemplo, até seu sangue escorrer por completo e a queima de alfazema quando nascia uma criança, são curiosidades relevantes.

Ia até me esquecendo do costume lavar o corpo do morto e enterrá-lo enrolado em uma mortalha, e não dentro de um caixão, por exemplo, e ainda as mesas grandes de refeição com gavetas, para esconder as comidas (de origem judaica) se porventura fossem pegos de surpresa, é uma das muitas tradições judaicas repetidas tantas vezes no interior nordestino.

As pegadas estão aí em códigos e sinais desses nossos irmãos mais velhos que nos deixaram marcas indeléveis de sua cultura e de sua fé no Deus Pai todo poderoso.

Por André Aguiar em 03 de julho de 2021.

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