Prisão de Lula

O detento, seu sítio e a bronca

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Nesta quarta­feira (14), o detento e ex­presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será interrogado em Curitiba pela juíza federal Gabriela Hardt, substituta de Sergio Moro, como réu do processo da Operação Lava Jato sobre o sítio de Atibaia (SP). Segundo denúncia do MPF (Ministério Público Federal), Lula teria sido o beneficiário de reformas feitas no local por empresas após beneficiá­las em contratos com a Petrobras obtidos de forma fraudulenta.

Há outros 12 réus no processo, que vêm sendo interrogados desde a semana passada. Entre eles estão Emílio e Marcelo Odebrecht, da empresa que leva o nome da família; Léo Pinheiro, ex­presidente da construtora OAS; e o pecuarista José Carlos Bumlai, que também será ouvido na quarta­feira.

Lula responde a outros processos derivados das operações Lava Jato e Zelotes. Um deles, o do tríplex do Guarujá (SP), foi o que levou o ex­presidente à cadeia após a condenação em segunda instância. Lula recorre da decisão nos tribunais superiores.

A denúncia – O MPF acusa Lula de ter recebido propina por meio de reformas no sítio, que pertence a Fernando Bittar, amigo da família do expresidente. Os recursos teriam vindo de crimes cometidos pelas construtoras Odebrecht, OAS e Schahin em contratos com a Petrobras.

Marcelo Odebrecht teria corrompido Lula e executivos da Petrobras nomeados pelo ex­presidente para obter vantagens em quatro contratos com a Petrobras. Léo Pinheiro e Agenor Medeiros teriam feito o mesmo para a OAS em relação a três contratos com a estatal. Segundo a acusação, a Odebrecht gastou R$ 700.000 com as reformas no sítio, e a OAS, R$ 170.000.

De acordo com o MPF, o pecuarista José Carlos Bumlai intermediou o pagamento de R$ 150.500 gastos nas reformas. Os valores também teriam origem em um contrato da construtora Schahin obtido de forma fraudulenta junto à Petrobras.

Para atribuir o uso do sítio a Lula, o MPF apresenta os seguintes indícios: registros de que carros usados pelo ex­presidente estiveram lá ao menos 270 vezes entre 2011 e 2016; a presença de dois pedalinhos com nomes de netos do petista; e a existência no local de bens pessoais de Lula, como roupas com as iniciais dele e da ex­primeira­dama Marisa Letícia, que morreu em 2017.

Os réus

Luiz Inácio Lula da Silva: o ex­presidente da República é acusado dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Marcelo Odebrecht: ex­presidente do Grupo Odebrecht. Em seu interrogatório, disse que reclamou da reforma porque seria uma “exposição desnecessária”, e a primeira vez em que a Odebrecht faria algo “pessoal” para Lula. Porém, negou relação entre a reforma e contratos com a Petrobras. É acusado de corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Emílio Odebrecht: ex­presidente do Conselho de Administração da Odebrecht e pai de Marcelo. Declarou ter autorizado a Odebrecht a fazer a reforma no sítio. Acusado de lavagem de dinheiro.

Alexandrino Alencar: ex­diretor da Odebrecht. Afirmou que a ex­primeira­ dama Marisa Letícia, falecida em 2017, pediu a ele a reforma no sítio, e que levou o pedido a Emílio Odebrecht. Acusado de lavagem de dinheiro.

Carlos Armando Paschoal: ex­diretor da Odebrecht em São Paulo. Contou que recebeu de Alexandrino Alencar a ordem para executar a reforma depois da autorização de Emílio Odebrecht. Acusado de lavagem de dinheiro.

Emyr Diniz Costa Júnior: engenheiro da Odebrecht. Foi incumbido da reforma por Carlos Armando Paschoal e disse que se reuniu com o advogado Roberto Teixeira para “regularizar” a obra. Acusado de lavagem de dinheiro.

Léo Pinheiro: ex­presidente da OAS. Afirma que obteve de Lula e Marisa o pedido para reformas no sítio e que o valor foi abatido de uma “conta corrente” de propinas para o PT. Acusado de corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

Agenor Medeiros: ex­diretor da OAS. Acusado de corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Paulo Gordilho: engenheiro da OAS. Teria providenciado a contratação da reforma da cozinha do sítio, pagando os R$ 170.000 gastos pela OAS em espécie. A Polícia Federal encontrou em seu celular uma foto em que aparece ao lado de Lula tomando cerveja no sítio. Acusado de lavagem de dinheiro.

José Carlos Bumlai: pecuarista. Diz que a reforma no sítio foi pedida por Marisa Letícia. Segundo a acusação, montou um esquema para dissimular o uso dos R$ 150.500 nas obras. Acusado de lavagem de dinheiro.

Rogério Aurélio Pimentel: ex­assessor da Presidência da República. Teria coordenado os trabalhos de reforma no sítio. Acusado de lavagem de dinheiro.

Roberto Teixeira: advogado e compadre de Lula. Teria se reunido com Alexandrino Alencar e Emyr Costa, da Odebrecht, para “regularizar” as obras feitas pela empresa no sítio, sugerindo a elaboração de um contrato de fachada com uma empresa.

Fernando Bittar: dono do sítio. Teve notas fiscais de parte das reformas emitidas em seu nome por fornecedores ­­ segundo o MPF, com o intuito de dissimular a origem do dinheiro usado nas obras. Acusado de lavagem de dinheiro.

As testemunhas

O encarregado de obras Misael de Jesus Oliveira, da OAS, afirmou que trabalhou nas reformas do sítio em 2014 e que “desde o começo” foi orientado a manter sigilo sobre os trabalhos, já que a propriedade seria de Lula.

O caseiro Élcio Pereira Vieira confirmou que Lula se encontrou com Léo Pinheiro e Paulo Gordilho no sítio em 2014, e declarou que Marisa Letícia decidiu sobre duas reformas na propriedade: o acabamento de um banheiro e a ampliação de uma cozinha.

Várias testemunhas convocadas pela defesa de Lula disseram que o ex­presidentecogitava comprar o sítio. Ricardo Santos, exsegurança de Lula, disse ter ouvido de Marisa Letícia que o local poderia servir para guardar o acervo presidencial.

O imóvel foi comprado no fim de 2010, quando Lula deixava a Presidência, por Fernando Bittar e Jonas Suassuna, sócios dos filhos do ex­presidente. Jacó Bittar, ex­prefeito de Campinas e pai de Fernando, disse à Justiça que não concordava com a venda do sítio para Lula. “Eu sempre fui contra a venda e disse que eles poderiam usar o quanto quisessem e que isso me deixava feliz”, afirmou.

 

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