Política Nacional
Governadores que não renunciaram podem redesenhar disputa presidencial
A decisão de parte dos governadores de não renunciar aos cargos para disputar o Senado ou a Presidência da República neste ano pode alterar e reposicionar o papel dos estados na corrida eleitoral de 2026.
Na prática, ao abrir mão de candidaturas próprias, esses governadores optaram por influenciar sucessões locais e atuar como articuladores centrais das alianças políticas, uma estratégia que, segundo especialistas ouvidos pelo, terá efeito nos próximos meses.
Entre os governadores que decidiram ficar até o fim do mandato estão Eduardo Leite (PSD-RS), Ratinho Jr. (PSD-PR) e Fátima Bezerra (PT-RN). Também seguiram essa linha Carlos Brandão (sem partido-MA) e Wanderlei Barbosa (Republicanos-TO).
Para o cientista político Gabriel Amaral, há um deslocamento importante na forma de atuação desses políticos.
“Governadores que optam por não disputar deixam de buscar protagonismo direto e passam a operar como estruturadores do jogo, organizando sucessões, definindo alianças e preservando capital político”, afirma.
Ele avalia que o movimento está ligado ao atual cenário de polarização, que torna disputas majoritárias mais arriscadas e valoriza o controle territorial.
“Permanecer no cargo permite ao governador negociar com diferentes polos, calibrar apoios e manter margem de manobra, transformando o estado em ativo estratégico dentro de uma eleição cada vez mais nacionalizada”, diz.
Controle da máquina estadual – A decisão de não renunciar gera efeitos amplos na disputa presidencial, que deve ter como principais polos o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e nomes da oposição, como Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD).
Por um lado, a ausência de governadores nas urnas reduz o número de “puxadores de voto” diretos. Por outro, fortalece a estrutura de apoio nos estados.
Para Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, o poder institucional se torna o principal ativo nesse contexto.
“Para candidatos à Presidência como Lula ou os nomes da oposição, ter um aliado com controle total da máquina estadual até dezembro é muitas vezes mais vantajoso do que tê-lo como candidato”, explica.
Segundo ele, isso garante maior coesão nas alianças e reduz o risco de fragmentação nos partidos. “O governador em exercício atua como coordenador político, mobilizando prefeitos e garantindo capilaridade ao palanque presidencial”, afirma.
Cientista política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Mayra Goulart reforça esse ponto ao destacar o peso da estrutura administrativa. “O governador que não renuncia é muito útil para candidatos, porque fica com a máquina na mão e pode se dedicar à campanha”, diz.
Senado e alianças em definição – A ausência de governadores na disputa ao Senado também altera a dinâmica da renovação da Casa, que elegerá duas vagas por estado em 2026.
De acordo com Gabriel Amaral, a mudança quebra um padrão histórico. “O Senado funcionava como destino natural de lideranças executivas consolidadas. Sem esses nomes, abre-se espaço para uma renovação menos hierarquizada”, afirma.
Na avaliação dele, isso pode resultar em uma composição mais fragmentada e menos previsível. “O Senado deixa de ser extensão direta do Poder Executivo estadual e passa a refletir mais os arranjos regionais”, diz.
Ao mesmo tempo, a permanência dos governadores fortalece sua influência nas negociações do segundo semestre. Para Coimbra, com a “caneta” em mãos, eles passam a centralizar decisões sobre candidaturas e alianças.
“Isso abre espaço para que o governador mantenha a primazia na escolha do sucessor e na montagem das chapas para o Senado, utilizando o orçamento público e as nomeações políticas como moedas de troca para garantir a coesão de suas alianças”, finaliza.
Fonte: R7 – *Estagiária sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe – Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil