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Deus quis ficar entre nós – Por André Aguiar
O mistério da fé cristã não reside apenas no fato de Deus existir, mas na Sua insistência desconcertante em estar perto. A história de Jesus de Nazaré é o relato definitivo de um amor que se recusa a ir embora, mesmo quando a porta lhe é batida na cara ou, neste caso, quando a resposta da humanidade é a violência da cruz.
A trajetória de Jesus entre nós desafia qualquer lógica de autopreservação. Desde o nascimento em uma manjedoura periférica, Ele se fez vulnerável. Ele não veio como um “turista celestial” para observar as nossas dores de longe; Ele veio para habitar a nossa carne, sujar os pés na nossa poeira e sentir as nossas angústias. Deus quis ser humano.
No entanto, a resposta humana a essa proximidade divina foi, em última análise, a rejeição. A “construção” da vida de Jesus caminha para o Calvário, onde a humanidade decidiu que não havia espaço para Ele. Nós O matamos. A lógica humana dita que, se alguém tenta assassiná-lo, você foge. Se um povo o rejeita com ódio, você o abandona à própria sorte e se retira para a segurança. O instinto natural diante da cruz seria o julgamento e a separação definitiva.
Mas é exatamente aqui que o caráter de Cristo subverte tudo.
A morte não foi o fim da Sua estadia, nem o motivo de Sua partida. A Ressurreição não foi uma fuga para o céu, mas um retorno para os seus. Quando Jesus volta do túmulo, Ele não volta com vingança, nem com uma carta de despedida. Ele volta com as feridas abertas, mas com uma saudação de paz. Ele escolhe, deliberadamente, permanecer.
Ele instituiu a Eucaristia para ser alimento diário; enviou o Seu Espírito para ser companhia constante; e prometeu: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”. Mesmo sabendo do que somos capazes – da traição, da negação e da violência -, Deus decidiu que o Seu lugar é aqui.
Deus quis ficar entre nós não porque somos hospitaleiros, mas porque Ele É Amor. A cruz não O afugentou; pelo contrário, tornou-se a âncora que O prendeu definitivamente à história humana. Ele é o Deus que fica, mesmo quando tentamos expulsá-lo, garantindo que, na solidão humana, nunca mais haverá o vazio absoluto. A eternidade começou quando Ele decidiu que não saberia viver sem nós.
Que aprendamos essa importante lição do Menino Deus, que nasceu, nasce e que nascerá nesse Natal, deixemos Ele ficar em nossa casa, em nossa família e acima de tudo em nossos corações.
Por André Aguiar.