Projeto De Repente no Espaço começa o ano com uma edição especial – o Desafio, que acontece na quarta-feira (6), com a participação de 12 cantadores.

Seis duplas de repentistas de diferentes estados nordestinos se preparam para uma verdadeira batalha. As armas são as violas, a ironia e o sarcasmo presentes em versos afiados como punhais. É que o projeto De Repente no Espaço começa o ano com uma edição especial – o Desafio, que acontece na quarta-feira (6), com a participação de 12 cantadores. O evento começa às 19h, no mezanino 2 do Espaço Cultural, com entrada gratuita.
As duplas confirmadas são Ivanildo Vila Nova e Antonio Lisboa, Gilmar de Oliveira e Zé Carlos do Pajeú, Hipólito Moura e Zé Viola, Miro Pereira e Erasmo Ferreira, Luciano Leonel e João Lourenço, Edvaldo Zuzu e Raulino Silva. Na comissão julgadora estão Djair Olimpio, Jonh Morais, Junior Farias, Edezel Pereira e José Dantas.
A atividade promovida pelo Governo do Estado, por meio da Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc), dá continuidade ao projeto permanente De Repente no Espaço, realizado mensalmente. A atração se repete na primeira quarta-feira de cada mês com uma dupla de convidados.
Sobre o projeto – A Funesc lançou o projeto em julho de 2015 com o intuito de valorizar a arte genuinamente nordestina, que tem como berço a Paraíba. Logo na sua primeira edição, o De Repente no Espaço já se mostrou um sucesso com público crescente a cada mês. Nas cinco edições realizadas de julho a dezembro deste ano, dez poetas populares com notório reconhecimento pelo Brasil e exterior passaram pelo mezanino 2 do Espaço Cultural José Lins do Rego, a exemplo de Ivanildo Vila Nova, que recentemente completou 50 anos de carreira e em sua trajetória, além da sofisticada cantoria, é um artista que fez a diferença na profissionalização do repentista. Ele fez dupla com Rogério Meneses, que também tem carreira expressiva com participações e notoriedade em festivais por todo Brasil.
Na sequência, as duplas: Raimundo Caetano e Raulino Silva, João Lourenço e Luciano Leonel, Hipólito Moura e Gilmar de Oliveira, Miro Pereira e Antonio Silva e fechando o ano, Erasmo Ferreira com o notável poeta Zé Viola. Todos esses nomes marcaram presença na capital paraibana.
A cada mês, um repentista paraibano se apresenta fazendo dupla com um convidado vindo de outro Estado, apresentando duelos, poesias e canções da melhor qualidade do universo dos versos da cultura popular nordestina. O apresentador oficial e declamador é Iponax Vila Nova, coordenador do projeto que além conduzir as cantorias realiza oficina de declamação e versos pelo Estado, dentro do projeto De Repente no Espaço.
Repente – No Brasil, a tradição medieval ibérica dos trovadores deu origem aos cantadores – poetas populares que vão de região em região, com a viola nas costas, para cantar os seus versos. Eles apareceram nas formas da trova gaúcha, do calango (Minas Gerais), do cururu (São Paulo), do samba de roda (Rio de Janeiro) e do repente nordestino. Ao contrário dos outros, o repente se caracteriza pelo improviso – os cantadores fazem os versos “de repente”, em um desafio com outro cantador. Não importa a beleza da voz ou a afinação – o que vale é o ritmo e a agilidade mental que permita encurralar o oponente apenas com a força do discurso.
A métrica do repente varia, bem como a organização dos versos: há a sextilha (estrofes de seis versos, em que o primeiro rima com o terceiro e o quinto, o segundo rima com o quarto e o sexto), a septilha (sete versos, em que o primeiro e o terceiro são livres, o segundo rima com o quarto e o sétimo e o quinto rimam com o sexto) e variações mais complexas como o martelo, o martelo alagoano, o galope beira-mar e tantas outras. Todos se baseiam em métrica, rima e oração poética.
O extremo rigor quanto à métrica e a rima perfeita é característico na cantoria dos repentistas violeiros. O instrumental desses improvisos cantados também varia: daí que o gênero pode ser subdividido em embolada (na qual o cantador toca pandeiro ou ganzá), o aboio (apenas com a voz) e a cantoria de viola.
Cordéis musicados – O repente se insere na tradição literária nordestina do cordel, de histórias contadas em caudalosos versos e publicadas em pequenos folhetos, que são vendidos nas feiras por seus próprios autores. Uma tradição que, por sinal, inspirou clássicos da literatura brasileira, como o “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassu na, e “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. O repente foi para o Sudeste em meados do século XX, junto com a migração de nordestinos para os grandes capitais. Chegou a São Paulo em 1946 com o alagoano Guriatã de Coqueiro (Augusto Pereira da Silva) e, no Rio, instalou-se na Feira de São Cristóvão.
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