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Delação revela não haver irregularidades no financiamento do filme “Dark Horse”

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Colaboração de Antonio Freixo Júnior detalha sua participação nas transferências destinadas ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos; os aportes privados para a produção já eram conhecidos e, até o momento, não há prova de desvio ou ilegalidade relacionada a esses recursos, patrocínios a filme e obras artísticas são normais e legais.

A colaboração premiada de Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, acrescentou novos detalhes à investigação sobre os recursos enviados por Daniel Vorcaro para o patrocínio do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Freixo é proprietário da Entre Investimentos e Participações, empresa que participou da estrutura utilizada para realizar transferências ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, relacionado ao financiamento do longa.

A novidade trazida pela delação está, portanto, na descrição de como parte dessas operações foi realizada por alguém que afirma ter participado diretamente delas.

Isso não significa, contudo, que a colaboração tenha revelado uma irregularidade nos recursos destinados ao filme.

Até o momento, não há comprovação pública de desvio, lavagem de dinheiro ou outra ilegalidade nos aportes privados realizados para financiar Dark Horse.

Essa distinção é fundamental para compreender o que efetivamente mudou com a nova delação.

Uma afirmação publicada sobre Lula que também precisa ser esclarecida – O caso Dark Horse não é a única relação entre Daniel Vorcaro e produções audiovisuais envolvendo figuras da política brasileira que veio a público.

Em maio de 2026, o colunista Lauro Jardim, de O Globo, publicou que pessoas próximas a Vorcaro relataram que o empresário teria injetado recursos em duas produções biográficas: o filme sobre Michel Temer, “963 dias, A história de um presidente que recolocou o Brasil nos trilhos”, e o documentário “Lula”, dirigido por Oliver Stone. A publicação registrou, porém, que não se sabia em que condições os supostos recursos teriam sido concedidos.

A informação sobre o filme de Lula foi posteriormente contestada pelos próprios responsáveis pela produção. Oliver Stone e os produtores afirmaram que não receberam financiamento, investimento, patrocínio ou contribuição de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de empresas e fundos associados a eles. A Secretaria de Comunicação da Presidência também informou que não houve pedido do presidente Lula ou do governo federal para financiar o documentário.

É justamente aí que surge uma questão que permanece sem resposta documental: houve ou não algum aporte privado de Vorcaro relacionado à produção?

A negativa dos produtores não elimina a necessidade de esclarecer a afirmação publicada por Lauro Jardim, mas também não permite transformá-la em fato comprovado. São necessárias evidências objetivas: contratos, registros de transferência, documentos contábeis, dados bancários ou qualquer outro elemento capaz de confirmar ou afastar definitivamente a informação.

Por que esse ponto também deveria ser investigado? Se as autoridades estão rastreando detalhadamente os recursos transferidos por Vorcaro para estruturas relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”, é legítimo perguntar se outras operações financeiras atribuídas ao empresário envolvendo produções politicamente relevantes também foram submetidas ao mesmo nível de verificação.

A questão não deveria ser sobre qual lado político aparece no filme. O critério deveria ser exatamente o mesmo para todos: quem transferiu o dinheiro, por qual estrutura, para quem, em que valor, com qual finalidade e qual foi o destino final dos recursos.

Até o momento, a existência de uma afirmação publicada por Lauro Jardim e as posteriores negativas dos responsáveis pelo documentário não constituem, por si só, prova de que Vorcaro financiou o filme de Lula. Mas, justamente por haver versões conflitantes, o assunto permanece passível de esclarecimento e merece investigação documental caso existam elementos que justifiquem sua apuração.

Esse é o ponto central: investigar um possível fluxo financeiro não significa acusar Lula, o filme ou seus produtores de qualquer irregularidade. Significa verificar se a informação publicada é verdadeira ou não.

E o mesmo padrão deve valer para qualquer produção financiada por recursos privados, independentemente de a obra retratar Lula, Temer, Bolsonaro ou qualquer outra personalidade política.

O que a delação acrescenta ao caso – Segundo as informações apresentadas sobre o acordo de colaboração, Freixo detalhou sua atuação nos repasses financeiros realizados por Vorcaro.

A Entre Investimentos aparece como intermediária das operações que levaram recursos ao Havengate Development Fund.

O fundo recebeu valores enviados por Vorcaro a partir de fevereiro de 2025. Registros financeiros já divulgados apontam uma sequência de transferências, incluindo uma remessa de US$ 2 milhões em 13 de fevereiro de 2025 e outras operações posteriores. Um pagamento de aproximadamente US$ 1,6 milhão, realizado em setembro de 2025, elevou o total identificado para cerca de US$ 12,3 milhões, aproximadamente R$ 65 milhões nas conversões correspondentes às datas das operações.

Esses pagamentos não são uma descoberta da nova delação.

A existência das transferências já havia sido documentada anteriormente.

O elemento novo é o depoimento de Freixo sobre a estrutura operacional utilizada para realizar parte desses repasses.

O caminho dos recursos – A reconstrução disponível até agora pode ser resumida da seguinte maneira:

Daniel Vorcaro → Entre Investimentos e Participações → Havengate Development Fund → financiamento de “Dark Horse”.

O Havengate está sediado no Texas e aparece relacionado ao advogado Paulo Calixto, que também atua para Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

É importante, porém, não transformar essa estrutura em uma conclusão que os documentos disponíveis não autorizam.

A existência de um fundo intermediário não constitui, por si só, evidência de irregularidade.

Fundos e empresas intermediárias são estruturas utilizadas em operações financeiras privadas, inclusive internacionais.

Para que houvesse uma conclusão de natureza criminal seria necessário demonstrar que os recursos tiveram origem ilícita, que foram desviados, que houve fraude na operação ou que foram empregados para finalidade ilegal.

Isso não foi demonstrado até o momento em relação aos aportes destinados ao filme.

O financiamento de “Dark Horse” já era conhecido – O caso ganhou notoriedade depois que vieram a público informações de que Flávio Bolsonaro havia negociado com Vorcaro recursos para financiar a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Posteriormente, documentos financeiros passaram a mostrar que os recursos foram enviados por meio da Entre Investimentos ao Havengate Development Fund, de acordo com os jornalistas Aguirre Talento e Alvaro Gribel, do Estado de São Paulo.

O próprio Flávio Bolsonaro reconheceu posteriormente que havia solicitado os recursos a Vorcaro e afirmou que o dinheiro foi utilizado integralmente na produção.

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, negou ter recebido recursos de Vorcaro por meio do fundo.

Portanto, a delação não inaugura a história dos pagamentos.

Ela acrescenta informações sobre a pessoa que participou da operacionalização financeira.

Quanto foi efetivamente enviado? Os registros financeiros divulgados apontam pagamentos que começaram em fevereiro de 2025.

Entre as operações identificadas estão:

  • 13 de fevereiro de 2025: US$ 2 milhões;
  • 24 de março de 2025: US$ 2 milhões;
  • 24 de março de 2025: US$ 1,666 milhão;
  • 25 de abril de 2025: US$ 1,666 milhão;
  • 25 de abril de 2025: US$ 1,666 milhão;
  • 29 de maio de 2025: US$ 1,666 milhão;
  • 16 de setembro de 2025: US$ 1,666 milhão.

Somadas, essas operações chegam a aproximadamente US$ 12,3 milhões. O Poder360 também registrou uma referência posterior, em mensagem de Vorcaro, a outro pagamento em outubro de 2025, sem valor detalhado.

O montante conhecido, portanto, é superior aos aproximadamente US$ 10,6 milhões inicialmente identificados nos pagamentos realizados até maio de 2025.

O que ainda não está comprovado – O próprio material divulgado sobre o caso registra que não foram encontradas provas de que os recursos de Vorcaro não tenham sido destinados ao filme.

Também não há, até o momento, comprovação de que os recursos tenham sido utilizados pessoalmente por Eduardo Bolsonaro ou por qualquer outro integrante da família Bolsonaro.

Eduardo nega essa hipótese, enquanto Flávio afirma que os recursos foram utilizados integralmente na produção.

Assim, é preciso separar três coisas:

O que está documentado: Os repasses de Vorcaro para o Havengate.

O que a delação acrescenta: O relato de Freixo sobre sua participação na operacionalização dessas transferências.

O que não foi comprovado: Que os recursos tenham sido desviados ou utilizados para finalidade ilícita.

A perícia sobre o filme – A própria produção de Dark Horse apresentou uma perícia privada sobre os custos do longa.

Segundo o laudo divulgado, a produção teve despesas de aproximadamente US$ 3,73 milhões no Brasil e US$ 9,66 milhões nos Estados Unidos, totalizando cerca de US$ 13,39 milhões no período analisado. O documento classificou os recursos como privados e não identificou vinculação com verba pública.

Investigação em São Paulo não apontou irregularidade no financiamento do filme – Outro ponto relevante é que a apuração conduzida em São Paulo não comprovou, desvio de recursos públicos para o Dark Horse. O material reunido pela investigação paulista foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal e passou a integrar o conjunto de elementos que pode ser analisado pela Polícia Federal.

Delação não é sentença – Outro ponto relevante é o estágio processual do acordo.

A colaboração foi firmada pela Procuradoria-Geral da República com Freixo em agosto foi enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para homologação. Freixo se comprometeu a pagar cerca de R$ 2 bilhões em multa. A delação será analisada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. A audiência destinada a verificar a voluntariedade do acordo está prevista para 8 de setembro de 2026.

Isso significa que a colaboração ainda está submetida às etapas processuais próprias desse tipo de acordo.

Além disso, mesmo uma delação homologada não significa que todas as declarações do colaborador sejam automaticamente consideradas verdadeiras.

O conteúdo precisa encontrar respaldo em outros elementos de prova.

O que se sabe, e o que não se sabe – O caso Dark Horse ganhou novas informações com a colaboração de Antonio Freixo Júnior, mas não ganhou, até o momento, uma prova pública de irregularidade nos aportes privados realizados por Vorcaro.

Os pagamentos ao Havengate estão documentados.

A participação da Entre Investimentos na estrutura financeira também está documentada.

A nova delação acrescenta o relato de alguém que participou da operacionalização dessas transferências.

O que continua sem comprovação é a existência de qualquer ilícito relacionado especificamente a esses recursos.

Até aqui, a história é objetiva: Daniel Vorcaro realizou aportes para uma estrutura financeira ligada ao financiamento do filme; a Entre Investimentos participou da operacionalização dos repasses do patrocínio.

Fonte: Investidores Brasil – Regiane Alves – Foto: Divulgação

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