Caminhoneiros de diversas regiões do país discutem a realização de uma paralisação nacional nos próximos dias, impulsionados pela alta do diesel e pela insatisfação com medidas adotadas pelo governo federal para conter o preço do combustível.
Em entrevista à Folha, o presidente da Abrava, Wallace Landim, afirmou que a mobilização envolve tanto motoristas autônomos quanto trabalhadores contratados por empresas de transporte.
Apesar de ainda não haver uma data definida, lideranças do setor já teriam aprovado a possibilidade de greve e buscam ampliar a adesão com entidades regionais, cooperativas e transportadoras.
Uma das principais críticas da categoria é que, logo após o anúncio de um pacote emergencial do governo para reduzir o custo do diesel, a Petrobras reajustou o preço do combustível nas refinarias. Segundo os caminhoneiros, o aumento anulou o efeito das medidas tributárias.
“O que foi feito até agora não serviu para nada. O governo já sabia que a Petrobras ia aumentar o preço do diesel depois. Então, na prática, não gerou redução nenhuma. Precisamos ter alguma garantia”, afirmou Landim.
O pacote anunciado pelo governo federal previa a zeragem de PIS e Cofins sobre o diesel e subsídios que poderiam reduzir o preço em até R$ 0,64 por litro. No entanto, um dia depois, a Petrobras elevou o valor do diesel A em R$ 0,38 por litro, citando a alta do petróleo no mercado internacional, influenciada por conflitos no Oriente Médio.
Além do preço do combustível, os caminhoneiros cobram o cumprimento da tabela mínima de frete e pedem medidas como isenção de pedágio para veículos sem carga. A categoria também reivindica a aplicação efetiva da Lei 13.703/2018, que instituiu a política de pisos mínimos do transporte rodoviário.
“A categoria deliberou para cruzar os braços, não tem condições de manter o trabalho. Entendemos os fatores externos, mas somos dependentes de 20% a 30% de importação, o que torna a situação insustentável”, disse o líder da Abrava.
Segundo Landim, há mobilização em estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Distrito Federal e Goiás. Ele também afirmou que representantes da Casa Civil entraram em contato para discutir o cenário, mas demonstrou ceticismo em relação a avanços nas negociações.
“Estamos cansados de nos sentarmos com o governo. Pode até ter mais diálogo, mas as dificuldades são as mesmas e nada se resolve”, declarou.
Os caminhoneiros também apontam falhas na fiscalização da tabela de frete pela ANTT, o que leva muitos profissionais a aceitarem valores abaixo do mínimo por pressão do mercado.
O tema é acompanhado de perto pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva, que tentou articular com estados a redução do ICMS sobre o diesel. Governadores, no entanto, rejeitaram a proposta, alegando perdas anteriores de arrecadação e criticando distribuidoras e postos por não repassarem reduções ao consumidor.
Com custos elevados e margens pressionadas, os caminhoneiros afirmam que a paralisação pode se tornar uma das poucas alternativas para pressionar por mudanças no setor.
Fonte: Folha de SP