Brasil

Banco Central reduz 0,25 ponto percentual na taxa juros e Selic vai a 14,50%

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu em unanimidade nesta quarta-feira, 29, reduzir a taxa de juros básica em 0,25 ponto percentual. Com isso, a Selic vai a 14,50%. Este é o segundo corte seguido na taxa.

A decisão está alinhada com o esperado pelo mercado, assim como o corte ocorrido na última reunião, em março, quando a taxa foi reduzida também em 0,25 ponto percentual, saindo dos 15% ao ano que vigorava desde junho de 2025.

O Copom justifica no comunicado que acompanha a decisão (veja a íntegra baixo) que o cenário atual é caracterizado por “forte aumento da incerteza”, e, assim, o Comitê “reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”.

No comunicado, o Comitê destaca que, no cenário doméstico, a inflação cheia e as adjacentes estão “distanciando-se da meta”. Cita também o mercado de trabalho ainda com ‘sinais de resiliência’ e, como esperado, uma moderação da atividade econômica.

Já a situação no Oriente Médio segue como fator de incertezas “em função da indefinição a respeito da duração, extensão, e desdobramentos”, diz o Copom.

“O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil. Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária.”

A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia, que influencia outras taxas de juros do país, como taxas de empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras. Com isso, a Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação.

Atualmente a inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), índice oficial do país, está em 4,14% em 12 meses. A meta é de 3%, com margem de tolerância entre 1,5% e 4,5%.

Super-Quarta – Nesta quarta-feira, também teve decisão sobre juros no Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, que manteve sua taxa atual, no intervalo de 3,50% a 3,75%. A decisão está alinhada à expectativa do mercado.

A decisão não foi unânime. Dos membros do comitê (Fomc, na sigla em inglês), oito votaram pela manutenção, incluindo o presidente (chair) Jerome Powell, e o vice. Um dos membros, Stephen I. Miran, votou pelo corte de 0,25 ponto percentual.

A votação de 8 a 4 foi a mais dividida desde 6 de outubro de 1992 e mostra a amplitude de opiniões que o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, enfrentará ao buscar os cortes nas taxas que o presidente Donald Trump diz esperar do sucessor que escolheu para Jerome Powell, cujo mandato como chefe do banco central termina em 15 de maio.

Leia a íntegra do comunicado:

O ambiente externo permanece incerto, em função da indefinição a respeito da duração, extensão, e desdobramentos dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.

Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação.

As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,9% e 4,0%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,5% no cenário de referência (Tabela 1).

Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, perante a indefinição acerca dos conflitos no Oriente Médio. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de restrições de oferta de petróleo e seus derivados; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores correntes de atividade econômica mostram recuperação em relação ao último trimestre de 2025, mantendo-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.

O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil. Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária. Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados. O Comitê julgou apropriado dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.

O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,50% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David e Paulo Picchetti.

Fonte: IstoE Dinheiro – Foto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil

Mais popular