Documentos obtidos pela Folha de SP revelam que Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, utilizaram aeronaves executivas vinculadas ao empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, em pelo menos oito ocasiões ao longo de 2025.
O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes assinou em fevereiro de 2024 um contrato com o Banco Master prevendo honorários mensais de R$ 3,6 milhões por três anos — um total de R$ 129 milhões, segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo.
Ele foi encerrado em novembro de 2025, quando o Master foi liquidado pelo BC (Banco Central).
As informações foram identificadas a partir do cruzamento de três bases de dados distintas. A primeira reúne registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) com nomes de passageiros que passaram pelo terminal executivo do Aeroporto de Brasília.
A segunda base, do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), detalha os voos realizados a partir do mesmo local. Já a terceira consulta envolveu o Registro Aeronáutico Brasileiro, também mantido pela Anac, para identificar os proprietários das aeronaves.
Segundo o levantamento, sete dos oito voos teriam sido realizados em aviões operados pela Prime Aviation, empresa que atua no compartilhamento de bens de luxo e da qual Vorcaro era sócio por meio do fundo Patrimonial Blue.
As aeronaves da companhia possuem autorização para operar como táxi aéreo, e um imóvel utilizado pelo empresário em Brasília também estaria vinculado à empresa.
A exceção ocorreu em 7 de agosto de 2025, quando o casal teria viajado em um Falcon 2000, de prefixo PS-FSW. O avião pertence à empresa FSW SPE, que não possui autorização para serviços de táxi aéreo.
Entre os sócios da companhia está o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, que foi detido na mesma operação envolvendo o ex-banqueiro e negocia acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal (PF).
O primeiro registro de viagem identificado ocorreu em 16 de maio de 2025. Na ocasião, Moraes e Viviane foram os únicos passageiros a embarcar no terminal executivo por volta das 9h30. Pouco depois, um jato da Prime Aviation decolou com destino ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Dias depois, em 22 de maio, o ministro teria viajado sozinho em um voo noturno rumo ao aeroporto Catarina, também na capital paulista. Em 29 de maio, o casal voltou a aparecer nos registros, dessa vez acompanhado por outros passageiros, embarcando em uma aeronave da mesma empresa.
Outras viagens ocorreram ao longo dos meses seguintes, incluindo deslocamentos em julho e agosto, com partidas em horários variados e destinos frequentes em aeroportos executivos de São Paulo.
Em um dos registros, consta ainda a presença do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, em um dos horários de embarque no terminal.
O último voo identificado ocorreu em 16 de outubro de 2025, quando uma aeronave da Prime Aviation partiu de Brasília rumo ao aeroporto Catarina, novamente com registros vinculados ao ministro e sua esposa.
Respostas
Em nota, o gabinete do ministro disse que “as ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas”.
“O Ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece”, acrescentou.
O escritório de Viviane Barci de Moraes afirma que “contrata diversos serviços de taxi aéreo, e que entre os que já foram em algum momento contratados está o da empresa Prime Aviation. Em nenhum dos voos em aeronaves da Prime Aviation em que viajaram integrantes do escritório, no entanto, estiveram presentes Daniel Vorcaro ou Fabiano Zettel”.
Afirma ainda que “a contratação desses serviços de táxi aéreo segue critérios operacionais e não envolve qualquer vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos”.
E diz que nenhum dos advogados do escritório conhece Zettel. A Prime disse que por questões de confidencialidade dos contratos e da Lei Geral de Proteção de Dados ela não divulga dados sobre os usuários das aeronaves do seu portfólio “sejam eles cotistas e seus convidados ou clientes de fretamento do serviço de táxi aéreo”.
A defesa de Daniel Vorcaro disse que não se pronunciará. O advogado de Fabiano Zettel não respondeu à mensagem do jornal.
Fonte: Folha de SP