Corrida Presidencial
A estratégia de alto risco do PT
Com o crescimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião, o PT inicia a corrida eleitoral tentando descobrir a solução para uma equação que deve se tornar uma verdadeira obsessão dos dirigentes do partido nas próximas semanas: Fernando Haddad, vice na chapa petista e substituto de Lula caso a Justiça Eleitoral barre a sua candidatura, conseguirá herdar votos suficientes do seu padrinho político para chegar ao segundo turno?
As três sondagens divulgadas após o início oficial da campanha trouxeram dados divergentes sobre o poder de transferência de Lula, que chega ao patamar de 37% das intenções de voto tanto no levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT) quanto na do Ibope; no Datafolha, desta quarta, ele alcança 39%. Na da CNT, 17,3% dos que manifestaram voto no ex-presidente disseram que, se ele for impedido de concorrer, passariam a apoiar Haddad (é importante destacar que a pergunta não mencionava que o ex-prefeito de São Paulo seria apoiado por Lula). Isso coloca Haddad com cerca de 6,5% da preferência do eleitorado, um ponto de partida frustrante para as ambições da legenda de reconquistar o Palácio do Planalto. No Datafolha mais recente, no entanto, que questionou se os pesquisados votariam em um candidato apoiado por Lula, 48% disseram “não”, enquanto 31% afirmaram que “sim” e outros 18% que “talvez” —num cenário sem Lula, Haddad, entretanto, aparece com apenas 4% das intenções de voto, empatado num distante quinto lugar com Álvaro Dias (Podemos).
A do Ibope, por outro lado, associou Lula diretamente a Haddad em uma das perguntas. Se o ex-presidente for tirado da disputa e declarar apoio a seu vice, 13% dos entrevistados afirmaram que votariam em Haddad “com certeza” — outros 14% disseram que “poderiam votar” nele. Longe de ser um começo ruim para quem ainda é desconhecido de boa parte do eleitorado, o levantamento trouxe, entretanto, um dado que preocupa para o PT. No mesmo item, quando os entrevistados são perguntados sobre o que fariam se a candidatura de Lula for impugnada, 60% afirmaram que “não votariam em Haddad de jeito nenhum”.
“A gente não consegue mensurar muito bem ainda a força de transferência de votos”, avalia Marco Antonio Teixeira, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo o especialista, as formas diferentes como os questionários foram formulados, por exemplo, influenciam nos resultados divergentes. “Ela [a força de transferência de votos] só vai ficar clara quando a candidatura de Lula não existir”, argumenta.
Lula foi preso em abril no âmbito da operação Lava Jato, condenado em segunda instância por, segundo a Justiça, ter aceitado um tríplex no Guarujá como propina de uma empreiteira. Por isso, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve declarar Lula inelegível com base na Lei da Ficha Limpa, mas desde a prisão do ex-presidente o PT redobrou a aposta na candidatura do seu maior líder. Não que os aliados de Lula acreditem numa reviravolta no Judiciário que libere a candidatura do ex-presidente no último instante, mas apostam que a estratégia de insistir no capital político (e na vitimização) de Lula surtirá resultados. Para se ter uma ideia, no Ibope divulgado nesta segunda, o ex-presidente reúne 47% dos votos válidos, um desempenho que, para qualquer postulante sem os obstáculos legais no caminho do ex-mandatário, significaria chances reais de levar o pleito ainda no primeiro turno.
A expectativa, neste momento, é que o Tribunal Superior Eleitoral julgue o registro de Lula até o final deste mês, portanto antes do início do horário eleitoral gratuito, em 31 de agosto.
Fato acachapante – As reações de petistas ouvidos pelo EL PAÍS às pesquisas têm ido em duas direções. Primeiro, dizem que o potencial de transferência medido pelo Ibope, de 13%, é positivo neste momento. Segundo, minimizam a alta parcela de entrevistados que, caso Lula seja impedido de concorrer e declare apoio a Haddad, disseram que não votariam no ex-prefeito paulistano “de jeito nenhum”. “Essa pergunta mostra um cenário em que o Lula só transfere a rejeição para o Haddad, o que não é crível”, avalia o ex-presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia. “Eu acho um número estranho, a rejeição ao Haddad não é tão alta. De qualquer forma, a rejeição é trabalhada durante a campanha e é uma questão que importa muito mais no segundo turno”, complementa um ex-ministro petista.
Existe entre as lideranças do PT a avaliação de que qualquer estimativa do real poder de transferência de votos é quase impossível de ser feita a esta altura. Trata-se de algo que vai depender, dizem, dos efeitos da campanha de comunicação que a sigla prepara para associar Haddad a Lula; da forma como o ex-prefeito poderá aparecer nos primeiros programas de rádio e tevê, caso a impugnação não ocorra antes do horário eleitoral; e, inclusive, do quanto o partido conseguirá adiar a troca — lembrando que o prazo final para a substituição de candidato é 17 de setembro.
Um parlamentar argumenta, por exemplo, que o potencial de migração de votos só será “mensurável” quando o “fato político se impuser”. “O fato em si [a impugnação de Lula e a sua substituição] será acachapante. É óbvio que o potencial real só será medido com o fato concreto em si, se ele vier a ocorrer”, diz.
Até lá, o Q.G. da campanha Lula-Haddad corre contra o tempo para tornar o ex-prefeito de São Paulo mais conhecido e, principalmente, para colar sua imagem na do ex-presidente. Foi publicado nesta terça nas redes do partido um vídeo em que Haddad, em meio a cenas do comício que o ex-presidente improvisou horas antes da sua prisão em abril, é apresentado como “vice-presidente do Lula”. Na peça, Haddad afirma que andará por todos os cantos do Brasil levando “as ideias e sonhos” do líder petista.
Não por acaso, a largada desse esforço de tornar Haddad conhecido começou pelo Nordeste, que se consolidou como o maior bastião de votos do partido nas últimas eleições presidenciais. Depois de desembarcar no Piauí, Haddad passou esta terça-feira em Salvador, de onde seguirá para Paraíba, Rio Grande do Norte e Maranhão. Na semana seguinte, nova investida, dessa vez por Pernambuco, Ceará e Alagoas.
A aposta do PT pelo Nordeste encontra eco nos dados do Ibope. Quando perguntados o que fariam caso Lula, uma vez impedido, declarasse seu apoio a Haddad, o número de entrevistados da região que dizem que votariam no ex-prefeito paulistano “com certeza” sobe quase dez pontos percentuais em relação à média do Brasil: vai para 22%. “Quando a coisa for consumada [a impugnação do Lula] o Haddad precisa estar mais conhecido. Então ele está dando aquele rolé pelo Nordeste”, brinca um dirigente do PT da Bahia.
O cenário altamente atípico das eleições atuais (o líder das sondagens preso e virtualmente inelegível, cujo capital político, segundo as atuais pesquisas, se converte em votos brancos, nulos e se fragmenta em maior ou menor grau entre quatro candidatos) faz com que a equação crucial deste pleito esteja longe de ser resolvida. A única certeza é que será uma aposta de alto risco para o PT. Até o momento, o o partido parece disposto a levá-la adiante.
El Pais – Ricardo Della Coletta