Dia Internacional da Mulher

Esperança Garcia, uma mulher negra escravizada, nordestina que fez história no Brasil

Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é um momento dedicado a reconhecer a trajetória de mulheres que marcaram a história em diferentes áreas da sociedade. Mais do que uma data comemorativa, o dia também convida à reflexão sobre lutas por direitos, igualdade e justiça. No Nordeste e em todo o Brasil, diversas figuras femininas se destacaram ao enfrentar desafios de seu tempo e deixar contribuições que seguem inspirando novas gerações.

Entre essas histórias está a de Esperança Garcia, uma mulher negra escravizada que viveu no século XVIII, na região de Oeiras, no sul do Piauí, a cerca de 300 quilômetros de Teresina. Sua trajetória atravessa o período colonial brasileiro, marcado pela escravidão e por profundas desigualdades sociais.

QUEM FOI? – Segundo pesquisadores, Esperança nasceu na Fazenda Algodões, propriedade administrada por padres jesuítas. Nesse local, ela teve acesso ao aprendizado da leitura e da escrita, algo raro para pessoas escravizadas naquele período.

Ainda jovem, aos 16 anos, casou-se e teve seu primeiro filho. No entanto, sua vida sofreu uma mudança brusca após a expulsão dos jesuítas pelo diplomata português Marquês de Pombal. Com a mudança da administração da fazenda para novos senhores, Esperança foi separada da família. Aos 19 anos, foi levada para outra propriedade, distante do marido e dos filhos.

A partir dessa realidade de violência e separação familiar, Esperança Garcia protagonizou um dos registros históricos mais marcantes da resistência de pessoas escravizadas no Brasil.

Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Piauí, inaugura estátua em homenagem à Esperança Garcia, 1ª advogada do Brasil | Foto: Divulgação/Ascom 

Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Piauí, inaugura estátua em homenagem à Esperança Garcia, 1ª advogada do Brasil | Foto: Divulgação/Ascom 

IMPORTÂNCIA HISTÓRICA – Em 6 de setembro de 1770, Esperança Garcia escreveu uma carta ao governador da então Capitania do Piauí denunciando os maus-tratos que sofria e relatando a situação de violência enfrentada por outros homens e mulheres negros na fazenda onde estava.

No documento, ela também pediu ajuda para retornar ao local onde vivia com o marido e a filha. A carta descreve agressões físicas, sofrimento familiar e dificuldades religiosas, como a impossibilidade de confessar pecados e batizar seus filhos.

Para juristas e historiadores, o texto possui características formais semelhantes a uma petição jurídica. Entre os elementos identificados no documento, estão:

  • endereçamento a uma autoridade pública;
  • identificação da autora;
  • relato detalhado dos fatos;
  • fundamentação no direito;
  • solicitação direta de providências.

Por essas características, pesquisadores consideram o documento um marco histórico. A carta de Esperança Garcia é apontada por estudiosos como possivelmente o primeiro registro desse tipo no Brasil.

Não há confirmação histórica de que o pedido tenha sido atendido ou se ela conseguiu reencontrar sua família. Ainda assim, o documento permaneceu como um testemunho poderoso da luta por dignidade durante o período da escravidão.

A carta só foi redescoberta em 1979, quando o historiador Luiz Mott a localizou no Arquivo Público do Estado do Piauí.

Décadas depois, a importância do documento ganhou reconhecimento institucional. Em 2017, dois séculos após sua escrita, a Ordem dos Advogados do Brasil no Piauí (OAB-PI) reconheceu Esperança Garcia como a primeira mulher advogada piauiense.

 Memorial Esperança Garcia | Foto: Reprodução/ Governo do Piauí

 Memorial Esperança Garcia | Foto: Reprodução/ Governo do Piauí

LEGADO – A trajetória de Esperança Garcia se transformou, ao longo do tempo, em um símbolo de resistência e de luta por justiça. Mesmo séculos depois, sua história continua sendo lembrada no Piauí por meio de homenagens, estudos e espaços que levam seu nome.

Entre os principais reconhecimentos, destacam-se:

  • Em 1999, após mobilização do movimento negro piauiense, o dia 6 de setembro foi oficializado como Dia Estadual da Consciência Negra no Piauí, em referência à carta escrita por Esperança.
  • Em 2017, a Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB-PI publicou o estudo “Dossiê Esperança Garcia: Símbolo de Resistência na Luta pelo Direito”, reunindo pesquisas sobre sua trajetória.
  • Memorial Esperança Garcia, em Teresina, dedicado à valorização da cultura afro-brasileira.
  • Centro de Referência de Atendimento à Mulher Esperança Garcia (CRAM), que presta apoio psicológico, social e jurídico a mulheres em situação de violência.
  • Auditório da Faculdade Adelmar Rosado, também batizado com seu nome.
  • Maternidade Esperança Garcia, em Nazaré do Piauí.

Em Teresina, a história da personagem também é lembrada por meio de uma escultura em tamanho real exposta na Central de Artesanato Mestre Dezinho.

Mais de dois séculos depois da carta enviada ao governador, Esperança Garcia continua sendo lembrada como uma mulher que encontrou na escrita uma forma de denunciar injustiças. Seu gesto atravessou o tempo e passou a representar a busca por dignidade e direitos, mantendo viva a memória de sua luta.

Confira a carta de Esperança Garcia

“Sou escrava da administração do capitão Antônio Vieira de Couto. Ele me tirou da Fazenda dos Algodões, local onde vivia com meu marido para trabalhar de empregada doméstica. Aqui não passo bem. O primeiro dos grandes sofrimentos é que meu filho sofreu muitas pancadas e é apenas uma criança. Chegaram a tirar sangue dele pela boca. Já comigo, não consigo nem explicar, mas para eles pareço um saco de pancadas, tanto que caí certa vez de cima do sobrado. Só escapei pela misericórdia de Deus. Já a segunda é que estou com meus pecados para confessar há três anos e mais três filhos para batizar. Peço pelo amor de Deus que olhe por mim e peça ao procurador para que me mande de volta para a casa de onde me tiraram do lado do meu marido e da minha filha.

De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia.”

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