Caso de Policia

Cantor preso no DF dá migué na Justiça, muda para SP e curte lua de mel em Dubai

A expressão “prisão domiciliar” costuma remeter à imagem de alguém restrito ao próprio endereço, sob regras rígidas e vigilância constante. No caso do ex-cantor gospel André Luís dos Santos Pereira (em destaque na foto ao lado da esposa), porém, o conceito parece ter ganhado uma interpretação mais abstrata. Antes de ser detido, julgado e condenado, o cantor e seus comparsas aplicaram uma série de golpes causando prejuízos próximos de R$ 300 mil. Entre as empresas lesadas estavam as sofisticadas Prada, Gucci e Burberry.

Condenado por estelionato e associação criminosa, André cumpre prisão domiciliar desde 20 de outubro de 2023, por determinação da Justiça do Distrito Federal. Ainda assim, sua rotina recente, marcada por casamento, lua de mel no Oriente Médio e residência em condomínio de alto padrão em São Paulo, sugere um domicílio bem diferente do que determina a Justiça do DF.

Após a condenação, André passou a cumprir pena domiciliar, em que as regras são claras: não pode sair da comarca sem autorização judicial, deve comunicar mudança de endereço e precisa obedecer às condições impostas pela Vara de Execuções Penais (VEP).Play Video

Casório pomposo – Mas eis que, em 7 setembro de 2024, o ex-cantor decidiu celebrar o casamento em grande estilo, em um hotel às margens do Lago Paranoá. No dia seguinte à cerimônia, embarcou para lua de mel em Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

Entre 8 e 14 de setembro, vídeos e fotos publicados nas redes sociais de sua esposa mostram o casal passeando pelo deserto em camelos, usando trajes típicos árabes e desfrutando de hotéis de alto padrão. Uma prisão domiciliar com vista para as dunas do Golfo Pérsico pode não estar prevista no Código Penal, mas nas redes sociais parece ter funcionado perfeitamente.

Não satisfeito com a geografia internacional ampliada, o ex-cantor também decidiu, por conta própria, mudar-se para Alphaville, em São Paulo. O casal vive atualmente no sofisticado condomínio Wave Alphaville, conhecido pelo alto padrão e pela discrição de seus moradores.

“Ponte aérea judicial” – Acontece que as regras da prisão domiciliar no Distrito Federal determinam que o apenado não pode morar fora da comarca sem autorização expressa da Justiça. Ainda assim, segundo informações apuradas pela coluna, André compareceria mensalmente ao DF para “mostrar” que mantém vínculo com a capital da República — uma espécie de ponte aérea judicial informal.

Enquanto isso, a rotina em Alphaville segue entre conforto, redes sociais e vida de condomínio de luxo, ao lado da esposa, empresária, blogueira e corretora de imóveis de alto padrão.

Procurada pela coluna para falar se o preso em regime domiciliar recebia a devida fiscalização, a Secretaria de Administração Penitenciária (Seape) respondeu apenas que “não divulga dados da situação processual de custodiados”.

Investigação – Em 22 de outubro de 2021, o então cantor, que acumulava cerca de 265 mil seguidores nas redes sociais e notoriedade no meio gospel, foi preso em São Bernardo do Campo (SP). Policiais militares estranharam a movimentação de três homens e decidiram fazer a abordagem. Com o grupo, foram encontrados diversos cartões de crédito, celulares e um notebook.

Ao consultar os dados, os agentes perceberam que um dos abordados era justamente o artista acusado de aplicar golpes contra marcas de luxo em Brasília. O trio foi encaminhado ao 2º Distrito Policial do Rudge Ramos, e ali começava a derrocada pública de uma carreira construída sob holofotes religiosos e redes sociais.

As investigações conduzidas pela 5ª Delegacia de Polícia da Área Central do DF apontaram um prejuízo próximo de R$ 300 mil a algumas das grifes mais sofisticadas do planeta, como Prada, Gucci e Burberry.

Esquema cara de pau – O esquema tinha certo requinte teatral. Para convencer representantes das marcas, o cantor utilizava uma sala comercial em prédio corporativo na área central de Brasília. Ali, em reuniões cuidadosamente encenadas, ele simulava ligações para um suposto assessor financeiro, pedindo a realização de transferências bancárias.

Segundos depois, um comparsa apresentava um comprovante de pagamento — que, segundo a polícia, existia apenas no papel. As roupas eram entregues. O dinheiro, não.

Em 6 de setembro de 2021, o grupo adquiriu mais de R$ 151 mil em peças da Prada. Dois dias depois, gastou cerca de R$ 124 mil na Gucci. Tudo muito elegante, não fosse o detalhe de que as transferências jamais foram compensadas.

Fonte: Carlos Carone – Metropoles

Mais popular