A mulher mais importante da vida do piloto Ayrton Senna é Betise Assumpção. Ela foi quem acompanhou de muito perto os últimos quatro anos de vida de um dos ícones do esporte brasileiro, mundial.
Depois de uma insistência de anos, finalmente cedeu e aceitou dar entrevista ao canal. Betise vive há anos Inglaterra e recebe inúmeros pedidos de entrevista de inúmeros veículos de comunicação do planeta.
Cineastas imploram por depoimentos em documentários sobre Senna ou a Fórmula 1. Ela foi assessora de imprensa de Senna. Estava ao seu lado em todos os Grandes Prêmios na Europa.
De personalidade fortíssima, forjada talvez no machismo que enfrentou quando era repórter do Estado, da Folha e da revista Placar, no início da década de 90, ele enfrentou os afoitos jornalistas que cobriam Fórmula 1, em relação ao Senna.
“Era uma bagunça. Um caos. Repórteres do mundo todos o metralhavam de perguntas, não o deixavam andar. Eu dividi todos em três grupos. Por idiomas, os que falavam inglês, italiano e português. Eles não queriam. Mas tiveram de aceitar.”
De personalidade fortíssima. Sempre foi muito competente. Além de organizar as entrevistas, combinava com Senna o que deveria e o que não deveria ser dito, até onde ele poderia e deveria se expor.
Ele era um piloto extraordinário nas pistas. Tricampeão do mundo, bonito, filho de família rica, de ótima formação educacional, mas a sua imagem de homem determinado, corajoso, competitivo, a ponto de enfrentar o sistema que privilegiava os europeus, principalmente quando o francês Jean-Marie Balestre comandava a FIA, a Federação Internacional de Automobilismo, protegia Alain Prost, se deve a Betise.
Balestre se irritava com um sul-americano ‘roubando’ o protagonismo dos europeus. Ele chegou a ser preso ao fim da Segunda Guerra, por seu envolvimento com o nazismo. A rejeição ao brasileiro Senna, representante do Terceiro Mundo, era escancarada.
Era Betise quem colocava os limites nas declarações de Ayrton. Moldava a imagem do brasileiro, escrevia textos diários, com palavras do piloto, que chegavam a mais de 300 veículos no mundo todo. E eram publicados. Lembrando que o período era antes da Internet.
Sobre a relação íntima com a Globo e com Galvão Bueno, ela é prática.
“A Globo tinha na Fórmula 1 um produto que era seu. O Senna era tricampeão do mundo. Explorava ao máximo. E o Galvão se tornou amigo íntimo dele. Era uma decisão do Ayrton ter essa proximidade. Foi bom para os dois lados. O que facilitou também foi o fato de o Brasil ser carente de ídolos. Como é até hoje.”
Ela foi a primeira assessora de imprensa de um piloto na F1. Senna a conhecia do Brasil. E sabia que Betise seria a assessora, o escudo que precisava para domar os jornalistas. A família de Senna, muito presente, também a aprovava.
“O Senna foi a pessoa mais focada, mais intensa que eu conheci. Extremamente competitivo.” Na vida pessoal, ela revela que Adriane Galisteu o deixou mais humano.
“Ela era uma menina, quebrava a rigidez com que ele levava a vida. Estava ficando mais alegre, mais solto. Fez muito bem para ele.”
Mesmo há 32 anos, Betise lembra como se fosse hoje o fim de semana trágico em Ímola, que Senna morreu.
“A pista era muito perigosa. Tinha várias falhas. Na sexta, o carro do Rubinho Barrichelo voou e só foi parar no ground rail. Saiu vivo por pura sorte. No sábado, o austríaco Roland Ratzenberger morreu. O Ayrton ficou abalado, como todos os pilotos. E revoltado. Criticou a falta de segurança em Ímola.”
Betise revela
“Ele jamais pensou em não correr em Ímola, mesmo com o que havia acontecido. Ele estava na equipe dos seus sonhos, a Willians. O mundo apostava, inclusive ele, que ganharia o tetracampeonato do mundo. Só que houve a mudança de regulamento e a suspensão automática, desenvolvida pela Willians, foi proibida.”
Ayrton teve de acertar o carro. Enquanto isso, o Schumacher voava na Benetton, em um carro que o Senna apostava estar irregular. E tinha 30 pontos, enquanto Senna, zero. “Ele tinha de correr. Correu por causa do Schumacher.”
Ela confirma que a barra de direção do carro de Senna foi mudada antes da prova.
“Ele queria mais espaço dentro do cockpit. Se sentia apertado. Agora, a causa da morte até hoje é especulação”, diz.
O carro do brasileiro corria entre 210 e 230 quilômetros por hora quando se chocou no muro de concreto que protegia a curva Tamburello.
“Não imaginava a gravidade do que tinha acontecido. Estava indo para lá, sabendo que o Ayrton sairia com o mau humor de sempre, quando batia. Até que o Bernie Ecclestone chamou o Leonardo, irmão do Senna, para conversar. Fui junto porque o Leo não falava bem inglês. E ele foi direto. ‘O Ayrton está morto.’ Disse isso quando ele ainda estava sendo atendido. Mas a versão oficial não foi divulgada na hora, porque a corrida teria de ser cancelada.”
Seria caótico para televisões do mundo todo que transmitiam a prova. O dinheiro impera na F1. O ambiente é cruel. E Senna foi para o hospital Maggiore.
“Lá os médicos, que deveriam estar lutando para salvar a vida de Senna, davam longas coletivas. Era claro para mim que ele já estava morto”, disse o jornalista Roberto Cabrini, o primeiro a noticiar oficialmente a morte do piloto brasileiro.
Betise veio com o corpo para o Brasil. Ainda teve de ser fria para determinar quem levaria o caixão até ser enterrado. ‘O Prost seria o primeiro. Eu tratei de avisar que a ordem seria por altura e coloquei o Emerson Fittipaldi, brasileiro e campeão, e o Gerhard Berger, muito amigo dele, na frente. O Prost foi para o meio. Inventei essa história de altura. O Senna aprovaria o que eu fiz. Prost, não. Os dois não se gostavam por anos. Foram rivais de verdade.’
Betise revela. “Também tirei o Jackie Stewart, que vivia criticando o Senna.”
Valeram os anos de espera. A entrevista de Betise foi muito reveladora. E um mergulho profundo nos últimos anos de Ayrton Senna. Revelado por quem esteve ao seu lado.
R7 – Cosme Rímoli