Enquanto o mundo volta seus olhos para conflitos bélicos televisionados e disputas econômicas entre potências, uma guerra silenciosa e contínua ocorre nos subterrâneos da nossa civilização.
Não há sirenes de ataque aéreo, nem exércitos fardados. As vítimas não são soldados, são a promessa do futuro: as crianças. O tráfico mundial de crianças é, hoje, uma das chagas mais profundas da humanidade, uma “guerra invisível” que transforma vidas em mercadorias.
Os dados são alarmantes, ainda que representem apenas a ponta do iceberg devido à subnotificação. Segundo organismos internacionais como a ONU, o tráfico de pessoas movimenta bilhões de dólares anualmente, competindo em lucratividade com o tráfico de armas e drogas. A diferença macabra é que, ao contrário de uma droga que é consumida uma única vez, o ser humano pode ser vendido e explorado repetidas vezes.
A invisibilidade deste conflito reside na sua capacidade de se camuflar na normalidade. As rotas do tráfico são pavimentadas pela miséria, pela falta de educação e pelas crises migratórias. Crianças que fogem de guerras ou vivem em extrema pobreza tornam-se alvos fáceis para aliciadores que vendem sonhos falsos de uma vida melhor. Além disso, a tecnologia trouxe o perigo para dentro de casa: o aliciamento online (grooming) cresce exponencialmente, onde predadores manipulam vítimas através das telas de celulares.
Baseado em fatos reais o filme Sound of Freedom (Som da Liberdade) mostra a luta de Tim Balard, um agente do governo americano que deixou seu cargo para combater o tráfico sexual infantil, notadamente na América Latina, retrata um tema que a mídia mundial faz questão de esconder ou de não retratar de maneira explícita como esses casos merecem e devem ser abordados.
Recentemente, inclusive, ele trouxe novamente a baila o mesmo tema em outro filme, sob o título Guerra Oculta, que pode ser visto no maior canal de Streaming do Brasil, que é o “Brasil Paralelo”. Lá o conflito sangrento da guerra da Rússia e a Ucrânia, expõe essa tragédia humana que é o tráfico de crianças, no qual, para nossa surpresa movimenta anualmente – somente com o tráfico de crianças – algo em torno de U$ 50.000.000.000,00 (cinquenta bilhões de dólares), valores esses pagos com o sangue delas, que sem defesa, morrem e sofrem os horrores dessa guerra “invisível”. Lamentável.
Mas não precisamos ir muito longe para verificar que no Brasil, essa realidade ganha contornos dramáticos e específicos. O país atua não apenas como rota, mas como origem e destino de vítimas. Aqui, o tráfico alimenta duas indústrias cruéis: a exploração sexual infanto juvenil e a adoção ilegal. A exploração sexual é frequentemente “naturalizada” em zonas turísticas e nas margens de rodovias, onde a infância é moeda de troca. Já a adoção ilegal se aproveita do desespero de famílias vulneráveis e da burocracia estatal, criando um mercado onde recém-nascidos são subtraídos de seus lares e “encomendados” por quem prefere pagar a esperar na fila legal, ignorando o rastro de crime que essa transação gera.
O combate a essa barbárie exige mais do que indignação; exige inteligência policial, cooperação transnacional e políticas públicas robustas. É urgente fortalecer a fiscalização nas fronteiras e investir na educação preventiva, ensinando as crianças a identificarem situações de risco.
O tráfico de crianças é uma mancha na consciência global. Não podemos permitir que a complexidade do problema sirva de desculpa para a inércia. Enquanto houver uma criança à venda, seja em uma fronteira europeia ou em um rincão do Brasil, a humanidade estará em dívida consigo mesma.
Por André Aguiar